
Preview
15 crianças encontram um estranho cientista em uma caverna próxima a seu acampamento de verão. Quando o cientista os convence a se registrar em um novo "jogo", eles descobrem que se tornaram pilotos de um enorme mecha que luta igualmente enormes mechas - exceto que não é bem um jogo de realidade virtual como esperavam, mas sim pura realidade, e suas vidas estão realmente em risco.
Andamento
Diversos animes usam os primeiros episódios, as vezes metade da série, para apresentar os personagens, suas personalidades, motivações e passado só para fazer com que você os entenda e se envolva o suficiente para quando o enredo começar - alguns telespectadores não gostam disto, achando que é perda de tempo que apenas deixa a obra arrastada e chata, atrasando o enredo que poderia já estar andando. Bokurano chega para provar o quão fraco e simplório um enredo fica se você realmente não fizer isto. Conforme os episódios passam, cada criança se torna piloto, e em uma previsível reviravolta (que nem é um spoiler já que é apresentado no episódio 3, e é vital para que possamos discutir as deficiências desta obra), o piloto selecionado irá morrer de qualquer forma: O enorme mecha que eles eventualmente chamam de "Zearth" funciona movido à força vital do piloto, e portanto ao final de uma batalha, o piloto inevitavelmente morrerá. Este detalhe é o NÚCLEO de todo o enredo, pois Bokurano não tenta ser orientado a seu enredo de ficção, mas é orientado aos personagens: cada criança tem seu passado, circunstâncias, dramas e medos, e cada vez que uma é selecionada como piloto, você terá um ou dois episódios mostrando o problema particular daquela criança, e como ela lida com sua vida - ou o que resta dela.
Cada episódio se foca nos aspectos sociais em uma abordagem mais para crítica social usando uma criança para apresentar algo de errado na sociedade, mostrando como as crianças sofrem com diversos problemas e tentam encontrar uma solução ou apenas aceitar seu destino antes que chegue sua vez, sendo que algumas crianças morrem sem nem tentar. E aqui esta porque Bokurano falha miseravelmente: algumas crianças você só nota que existem quando chega sua vez. Você então é jogado em uma corrida para mostrar os dramas e medos daquela criança e antes mesmo que você se importe, ela morre. Isto é particularmente verdade para a maioria (talvez metade) das crianças no começo, quando você ainda mal decorou o nome delas e já esta sendo forçado a aceitar todo o passado e presente dela, tendo que se envolver com alguém que, inevitavelmente, irá morrer ao final do episódio. A maioria destas primeiras crianças você simplesmente não se importa. Apenas quando existem tão poucas crianças, e já que sobreviveram até então você já as conhece bem, é que você começa a se importar e compreendê-las. Ainda assim, você vai sentir que perdeu muito ao não saber mais sobre as que já morreram. Em um dos últimos episódios, um personagem lembra de todas elas, e você poderá se encontrar vendo uma delas e pensando "quem era esta mesmo?"
Se não fosse o suficiente, enquanto que todo o objetivo do anime era uma crítica social em cima do drama de cada criança em sua infância, a maior parte do enredo ou qualquer coisa relacionada a "Zearth", porque eles estão lutando ou seus motivos, são secundários e previsíveis. Ao final, diversos aspectos do anime (como os mentores de tudo que esta acontecendo) são deixados completamente sem explicação, e o anime acaba sem sequer mencioná-los (apesar de ter dado dicas sobre sua existência no decorrer do anime - se não iriam explorar este aspecto, por que nos apresentar?)
Conclusão
Do mesmo criador do igualmente orientado a personagens e crítica social "Narutaru", Bokurano falha onde Narutaru foi bem sucedido mesmo não tendo um final: Desenvolvimento de personagens. Se não um erro do escritor, então falha do diretor. Independente de quem culpar, Bokurano não é profundo, mas sim entediante. Aparentemente o diretor não apreciou algumas sequências do manga e acabou por fazer sua própria versão, saindo totalmente da lógica (provavelmente correta) do mangá. Se você avaliar, nem o diretor nem o diretor de episódios fizeram nada muito profundo ou famoso (O diretor fez Neko no Ongaeshi, que é um infantil da Ghibli, e não dos melhores). Especulando sobre como Bokurano poderia ser bom, talvez seja mais simples de entender porque não o é: se tivessem usado alguns episódios no começo para apresentar de verdade os personagens antes de focar em cada um, o telespectador poderia se envolver mais, o que também iria ajudar a crítica social de cada personagem e seu problema. Além disto, apesar do foco ser os personagens, um final com alguma menção à motivação dos mentores e o que esta por trás das lutas do Zearth seria muito bem vinda, especialmente porque eles chegam até o ponto de mostrar os mentores, mas nunca se importam em explicar porque aquilo tudo existe.
Bokurano falha completamente em termos de desenvolvimento dos personagens, você não poderia se importar menos com a maioria das crianças (eu mesmo só me importei com as 3 últimas, e isto porque tiveram tempo de desenvolvimento em diversos episódios, preparando para o final, e não apenas um episódio como as outras), e falha ainda mais em apresentar um enredo de ficção interessante. Os "inimigos" são tão absurdos que quando o governo, exército e ONU desistem e deixam tudo nas mãos das crianças, você também desiste de ter qualquer mínima dica de enredo convincente, muito menos um encerramento que explique pelo menos o porquê real de tudo o que ocorre. Outro aspecto irritante é que se não bastasse não dar tempo de você conhecer as crianças, muitas morrem e nunca mais são lembradas (uma de minhas prediletas você nem acompanha os últimos momentos!). Seus amigos, dramas que deixaram e outros aspectos importantes para elas nunca são mencionados e são totalmente esquecidos. Para fazer as coisas piores, uma das personagens principais morre ANTES de seu flashback, o que faz você se importar ainda menos pois, apesar dela ser importante para vários personagens, o seu desenvolvimento é cortado e costurado repentinamente de forma que muitas surpresas e revelações que você esperava são feitas automáticas e sem emoção já que ela morreu.
Se você puder resistir a tentação de usar o fast foward nas entediantes sequências "conheça melhor a criança que vamos matar hoje!" e não dormir nas tentativas melosas de fazer você se envolver com um personagem que só realmente conheceu 5 minutos atrás, pode pelo menos dar uma chance para Bokurano ... e ver com seus próprios olhos como NÃO se faz desenvolvimento de personagens, principalmente um título com pretensão de ser orientado ao mesmo.
