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Mitos e lendas

Aquarismo - 21/12/2009


Este artigo foi escrito originalmente para uma possível seção de aquarismo em água doce que acabei por desistir. Ainda assim, valem as dicas para quem quer ter um aquário

No aquarismo atual, existem muitos mitos em relação ao que deve ser feito, práticas e tratamentos. Alguns destes mitos são muitas vezes fatais. Veja aqui alguns dos mitos mais comuns (e alguns incomuns).

A regra do cm/L: O aquário deve ter no máximo 1cm de peixe por Litro

Este é um mito muito difundido e totalmente falso. Não existe nenhum peixe que caia dentro desta infame regra. Cada peixe tem sua necessidade, preferência, metabolismo e até personalidade que faz deles precisarem de um volume (no sentido de volume d'agua e também no sentido de espaço) para viver bem. O correto é pesquisar tais peculieridades de cada espécie e descobrir valores mais apropriados. Em todo caso, a infame "regra do cm/L" sempre da um valor absurdamente inferior ao que o peixe realmente precisa. Inclusive, as vezes é mais importante saber o comprimento mínimo do aquário do que o volume. Não adianta ter um CUBO de 60L e colocar um Kinguio dentro ... quando ele crescer, ele vai ter praticamente o tamanho de um dos lados do cubo ... nadar, nem pensar.

Se a amônia esta zerada, então a população do aquário é adequada (não há super-população)

Super-lotação não é só indicado pela presença dos compostos nitrogenados, mas também em relação a qualidade de vida dos peixes. Se você tem uma boa filtragem e política de manutenção, pode ter um aquário super-lotado sem amônia, mas os peixes certamente não vão estar vivendo bem, sem contar que você estara vivendo "a beira do perigo" de um pico de amônia quando menos esperar. Aquários são locais para os peixes viverem, e não solitárias onde eles mau podem se mover!

Betta é um peixe solitário e não exigente, e portanto pode viver em pequenos aquários até de 1L

Vendedor adora esta, afinal podem vender Betta sem parar (já que inevitavelmente um Betta em 1L vai morrer rapidinho e você vai querer repor). Bettas, como todos os peixes, precisam dos mesmos cuidados: Um bom espaço para ele se sentir confortável (5L no mínimo, 10L ideal. Na natureza, estudos mostraram que Bettas delimitam um território de até 1m²), filtragem é também importante pois ele não vai viver bem em água poluída (sim, amônia afeta o Betta também, acaba com as guelrras e prejudica as mucosas); oxigenação; qualidade de alimentação; pH e temperatura estáveis. Enfim, tudo que um peixe merece. Só porque ele é resistente, não significa que você deva manter ele em constante stress.

Betta respira fora d'agua e portanto não precisa filtragem

Mais uma ladainha de vendedor para vender Betta sem nenhum suporte. Betta é peixe, não anfíbio: Ele respira debaixo d'agua como qualquer peixe, já notou que ele também tem guelrras? não são enfeites. O que acontece é que como todo Anabantídeo eles também podem obter oxigênio do ar, na superfície (e gostam de fazer isso com frequência). No entanto, a maior parte de sua respiração (saudável) ainda se dá debaixo d'agua: sem filtragem, toxinas como amônia e nitrito vão prejudicar sua respiração pelas guelras, dificultando fixação do oxigênio na hemoglobina (obrigando eles a usar o seu "backup", respirando fora d'agua sempre). Além disso, tais toxinas também acabam com a imunidade do peixe, causando doenças. Betta precisa SIM de filtragem.

Bettas não podem sobreviver em comunitários, são peixes solitários

Devido à fama de "Peixe de briga", muitas pessoas acham que Betta vai sair atacando todos os peixes que encontra: não é verdade, eles brigam entre si, como qualquer peixe territorialista. Na verdade, Bettas são bastante companheiros com outras espécies, e é muito mais comum outras espécies atacarem Bettas, do que os Bettas atacarem outras espécies. Portanto, Bettas podem sim viver em aquários comunitários (só um espécime, a não ser que seja um aquário bem grande),e o único cuidado é ver se algum peixe exaltado não vai se aproveitar da lentidão do Betta e acabar o incomodando, e evitar decorações com pontas que possam cortar as belas nadadeiras do Betta. No entanto, Bettas não são santos como qualquer outro peixe, e podem invocar com algum peixe, principalmente os com cores/caudas mais vivas: cuidado extra com Guppys!

Bettas não podem viver em aquários grandes pois não sobrevivem à pressão ou águas agitadas

Parcialmente verdade, os Bettas vivem na natureza em águas paradas e rasas, e portanto tem resistência limitada à grandes profundidades. No entanto, a maioria dos aquários domésticos não são tão profundos para ser um problema: eles podem viver normalmente em um aquário de cerca de 50cm de profundidade (de coluna d'agua). No entanto, por causa desta sensibilidade à pressão, os alevinos/filhotes sim tem grandes problemas com a profundidade, e a criação de Bettas deve ser feita em betterias com no máximo 10cm de profundidade. Sobre a àgua agitada, o Betta realmente não gosta, e suas caudas exuberantes acabam fazendo qualquer correnteza os jogar para lá e para cá, mas desde que o aquário tenha áreas calmas e esconderijos onde ele possa se acalmar, e áreas com suporte alto para ele poder ficar próximo à lâmina d'agua (pois eles gostam de respirar fora d'agua vez por outra), não há problema.

Alguns peixes não precisam de filtragem

Todos os peixes precisam de filtragem: remover detritos, incentivar o ciclo do nitrogênio, remover metais com a filtragem química. Só porque um peixe é grande ou resistente, não quer dizer que ele pode viver em água de má qualidade.

Neons (ou insira o nome de outro peixe aqui) são peixes frágeis

A maioria dos peixes é bastante resistente. O que acontece é que os peixes menores vão precisar de menos tempo de doença para que a mesma se alastre por todo seu corpo. Por exemplo, um neon pode sobreviver uma infestação de parasitas em 90% do seu corpo (que não demora para acontecer, já que é um peixe diminuto), mas dificilmente você vai ver um peixe de maior porte sobreviver a 90% de infestação ... quem é o mais resistente? Peixes a beira da morte também tem um bom histórico de voltar a vida se muito bem cuidados. A natureza é sábia! o mais forte sempre prevalesce, e os peixes que temos hoje são fruto da evolução, com pequenas infelizes excessoes de espécies alteradas por manipulação humana.

Se o pH for 7.0, posso ter qualquer peixe

Vendedor fala de tudo para vender peixe, inclusive eles até gostam de variar um pouco: peixes de água ácida são vendidos como se tivessem pH ideal 6.8, e peixes de água alcalina como se tivessem pH 7.2 ... na verdade os valores são muito mais distantes! Cada peixe tem o seu pH ideal, de acordo com seu local de origem natural. Como o pH neutro é mais centrado, é o pH "mais próximo de todos os pH's", mas não quer dizer que permita qualquer peixe: é mais ou menos aceito que os peixes devem, no máximo, viver em uma água até 0.5 graus de pH diferente do seu habitat natural. No entanto, para uma boa qualidade de vida (sem stress e portanto mantendo a imunidade do peixe), quanto mais próximo do pH ideal, melhor. Alguns peixes tem o pH ideal distante demais de 7.0, e não vão viver em tais águas (os mais resistentes podem sobreviver, sofrendo e com péssima qualidade de vida, adoecendo facilmente). Informe-se sobre o pH dos peixes antes de adquirí-los, e tente ter peixes cuja diferença de pH seja no máximo 0.6~0.8 (para ter o pH do aquário no meio, com diferença máxima de 0.3~0.4 para cada peixe).

Anti-cloro é suficiente para tratar a água antes de colocar no aquário

Em alguns lugares do Brasil, as empresas de água usam cloramina ao invéz de cloro, que é um componente com propriedades parecidas ao cloro (mais solúveis, menos volátil). A cloramina, quando tratada só com anti-cloro, gera nada menos que amônia! Também existem outros metais nocivos na água da torneira que seria melhor serem retirados. Para tal, existem várias opções de "condicionadores de água", que removem cloro e todos os equivalentes, além de outros metais nocivos, como AquaSafe e Labcon Protect. Uma opção de baixo custo é ferver a água e deixar esfriar, e só então colocar no aquário: ao ferver, tanto cloro como cloramina evaporam. Mas cuidado, a água também perde oxigênio.

Depois de ciclado, não há necessidade de monitorar amônia

Muita gente confunde a ciclagem como "o começo do aquário". Na verdade, a ciclagem é apenas a preparação da biologia do aquário, mas não tem nada diferente do resto da vida do aquário: amônia, nitritos, nitratos ... estão todos lá. Amônia é responsável pela grande maioria das mortes em peixes (se não diretamente, indiretamente ao reduzir a imunidade dos peixes). Amônia deve ser monitorada periodicamente, assim como nitrito, e ao menor sinal de amônia, mesmo em aquários de pH ácido, atitudes como TPA's e regulação da dieta devem ser tomadas.

Para tratar nadadeiras corroídas em peixes de grande porte, pode-se cortar a área afetada

Praticamente um crime! Primeiro, que cortar a área afetada não traz nenhum benefício: causada por bactérias, as poucas bactérias removidas da ponta são apenas uma ínfima parte da infestação que o peixe deve estar sofrendo para ter chegado neste ponto (as nadadeiras, por serem mais frágeis e finas, são as que exibem os sintomas primeiro, mas as bactérias estão presentes em todo o peixe); segundo, porque ao cortar a nadadeira, a área de corte fica totalmente desprotegida e será atacada mais facilmente pelas bactérias; terceiro, porque você vai estressar um peixe já debilitado para fazer um dano físico em sua nadadeira (alguns métodos propostos para cortar a cauda são terríveis, como tirar o peixe d'agua, segurá-lo e cortar a cauda ... haja estresse e perigo de ferir o peixe); finalmente, além de não ter nenhum efeito, vão demorar dias ou semanas para o peixe conseguir recuperar a parte cortada (muitas vezes não cresce para o tamanho original, principalmente em Bettas), sendo que se não tivesse sido cortado e tratado normalmente, seria mais rápida a recuperação. Qualquer bactericida terá uma ação rápida e eficiente contra bactérias que corroem as nadadeiras, e não flagelam o peixe (nota: mesmo depois do tratamento, algumas partes da nadadeira podem cair, são as partes mortas que ainda estão soltando).

"Meu peixe esta com pontos/manchas brancas ... é Íctio!"

Apesar de Íctio ser a doença mais comum, existen tantas outras com sintomas parecidos. A primeira coisa que é necessário entender é que a mancha branca não é o parasita, mas sim o acúmulo de muco protetor da própria pele do peixe tentando atacar o parasita: ou seja, a maioria das doenças de pele vão ter sintomas parecidos, com manchas brancas (amarelas, cinzas...). Pontos/manchas brancas podem ser desde outros parasitas que não Íctio, até fungos e até bactérias. Atente a todos os detalhes e sintomas e faça um diagnóstico correto, não pule a conclusões! Tratar um peixe doente com o medicamento errado só vai intoxicá-lo com um medicamento inútil e prejudicar ainda mais sua imunidade.

Japoneses (kinguios) podem viver com qualquer peixe, por serem bastante dóceis.

Totalmente falso.Kinguios precisam de condições bastante particulares para viver bem,e poucos peixes se adaptam à tais condições.Além disso,como tem nadadeiras longas,são muito atacados por outros peixes (justamente por serem dóceis).A melhor companhia para kinguios são outros kinguios, ou no máximo carpas.

Peixes de fundo, como Coridoras, comem fezes de outros peixes e algas.

Falso. Coridoras comem restos de alimento de outros peixes ou o alimento própio para peixes de fundo. A origem desse mito provavelmente está relacionada ao fato de que,enquanto os outros peixes cospem pela boca os dejetos que ocasionalmente mordem,a coridora os expele a partir das brânquias,o que dá a impressão de que ela engoliu a nojeira. Elas também não são exímias comedoras de algas, para tal peixes como o Oto simples, comedores de algas ou molinésias preferem mais algas.

Sal pode ser adicionado para regular dureza ou medicamento

Algumas pessoas usam sal (grosso ou iodado) indiscriminadamente como remédio em aquários, e em diversas situações, até mesmo para tentar aumentar a dureza da água (confundem o termo "sal" genérico - no caso dos compostos que realmente atuam na dureza da água, que são sais - com o sal comum e sal frosso). Deixem o sal para os aquários marinhos e para aquários de água salobra, sal até pode ser usado como medicamento, mas sua manipulação é muito delicada e até aquaristas experiêncies cometem erros. Existem raras exceções onde tratamentos muito específicos indicam sais para o tratamento, mas apenas nestes tratamentos, como hidropsia, e sempre em doses bem monitoradas. O sal, se adicionado mesmo em quantidades pequenas em aquários de água doce, acabam com a função dos rins do peixe e prejudicam a mucosa externa - mas por ser um processo lento, as pessoas não percebem. 2 ou 3 meses em um aquário com um pouco de sal é o suficiente para matar um peixe. Se for usar sal, nunca use no aquário principal, pois ele destrói a colônia benéfica de bactérias

Limpa-vidros não precisam ser alimentados, porque comem as algas do vidro do aquário

Apesar de comerem algas e alguns detritos, como todo e qualquer peixe, eles também comem ração, e existem muitas rações específicas (as chamadas rações de fundo) para este tipo de peixe. Alguns peixes considerados "limpa-fundo", inclusive, não comem nada de alga.

As bolhas de ar dos aeradores são responsáveis pela oxigenação da água

Na verdade a água é oxigenada pela movimentação da mesma junto a uma superfície de contato com o ar. As bolhas dos aeradores é um exemplo de tal movimento, mas o movimento da água nos filtros externos é muito mais eficiente, principalmente filtros grandes. A troca de compostos no ar com a água se dá nesta movimentação, e não na inclusão "direta" de ar na água. Cuidado: a movimentação excessiva também adicionar CO2 na água.

Nota: este artigo foi inspirado em um tópico do forum AquaHobby, mas reproduzido e levemente alterado com permissão do autor.


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