Empatia - um presente de vida

Capa

Comentários desta edição

Esta edição foi levemente alterada em relação ao original, que foi entregue a minha esposa como presente de aniversário. Ela possui leves alterações nos últimos capítulos para torna-la levemente mais abrangente. Apesar de ser uma versão orientada a ser apresentada para pessoas que estimo, ainda não deixa de ser uma obra intrinsecamente orientada a minha convicção e mente, e portanto, nada mais do que opiniões pessoais que eventualmente confirmei serem de total igualdade com a de minha esposa.

Como comentário extra para quem não conheça, a capa desta obra não foi desenhada por mim,mas trata-se da arte de Hinayuki Usa, da qual reconstruí algumas partes que não possuíam na imagem original e adicionei o fundo. Para mais fabulosas imagens de animação japonesa visite minha galeria.

Prólogo

O presente, o passado e o futuro estão conectados. Talvez da filosofia oriental, talvez de uma crença pessoal, talvez da união de diversas experiências, mas o que importa é que esta relação, no final, pode explicar muito do funcionamento humano.

O passado que ocorreu ainda persiste em nossas memórias, em nossos corações. O tempo e o lugar podem ter mudado e se passado, mas certamente os fatos que ocorreram e vivenciamos permanecem em nosso ser, fazendo parte de nossas vidas. O passado continua a ocorrer eternamente em nossas mentes, seja consciente ou não. É do passado que nós nos formamos e moldamos para nosso ser atual.

O futuro, por outro lado, virá sorrateiramente, sem percebermos. No entanto, o que somos e fazemos hoje, da mesma forma como o passado definiu quem nós somos e fazemos hoje, esta relacionado ao nosso ser presente. Portanto, o futuro ocorre também hoje, assim como o hoje é fruto do ontem.

E na relatividade do tempo, o único certo é que nós somos na verdade um único Ser. O “eu” ontem e o “eu” amanhã são apenas parte de um todo, com um leve estado diferente.

Talvez tudo isto seja óbvio, mas na verdade, indiferente de notarmos, acreditarmos, aceitarmos ou não, isto define algo de muito importante: a causa e efeito também fazem parte de nosso Ser, até os confins de nosso Ego. O que fazemos ou deixamos de fazer, o que somos, e o que faremos, estão todos conectados. Mas com nossa limitada psique, como podemos absorver tudo isto, compreender e aprender? O hoje, o aqui, geralmente já é complexo demais para absorvermos, quanto mais toda nossa existência.

Seria impossível, portanto, o Ser Humano dar um passo para trás e ver a grande pintura de sua vida, e com ela, aprender qual o seu papel na vida, na sociedade, e acima de tudo, sua obrigação consigo mesmo? Ou será que podemos mapear tudo isto em apenas uma dicotomia simples?

Livros de auto-ajuda, Profetas, documentários, grandes obras literárias, a sociedade e suas leis, a religião, filosofia, até novelas e reality shows: Todos, e inumeráveis outros, já tentaram direcionar o homem para o caminho “certo”, para seu objetivo na vida. Alguns dão boas dicas, uma cartilha sugestiva a ser seguida, enquanto outros outorgam e exigem ações e reações. Todos, a seu modo, tentam ensinar algo que acreditam ser a última versão da “verdade” e do “certo”. Todos, em igual teor e forma, fracassaram amargamente. Existe uma, e apenas uma grande lição a ser aprendida, uma das poucas verdades absolutas do ser humano que a história, justamente ao ser ignorada, provou correta, e é que o ser humano é incapaz de aprender com a história, e há de repetir seus erros (e dos outros) tantas vezes seja necessário, portanto, para sempre. Todas estas obras estão fadadas ao fracasso, e esta também.

Mas alguns aprendem, seja depois de muito errar, seja às vezes até por quase um milagre, aprendendo com o erro dos outros (estes afortunados afrontam o que a história quer provar, conforme parágrafo anterior). Mas qual a maravilhosa característica que permite tais pessoas, remando contra a maré, aprenderem com o erro dos outros ou os próprios, ou ainda, prever e evitar erros sem nunca tê-los cometido ou presenciado?

Assim como as falhas humanas podem ser descritas apenas por uma palavra, esta misteriosa habilidade rara de evoluir moralmente também é facilmente mapeada para uma única palavra: Empatia.

A falha humana? Egoísmo. O que o egoísmo consome, na abolição da inteligência provada pela repetição da história, a empatia resolve com uma leve luz de esperança.


Introdução

Nesta obra abordo minhas percepções, sentimentos e idéias sobre esta interessante dicotomia (egoísmo / empatia), Óbvio para alguns, talvez não tão óbvio pra outros, como para mim mesmo até pouco, no final podemos separar as qualidades e defeitos humanos como uma forma de egoísmo ou empatia.

Antes, no entanto, faz-se necessário um parêntese da extensão de um capítulo para explicar porque esta obra não só é dedicada a minha esposa, como também apenas voltada para ela e, portanto, talvez inútil para outros.

Como dito, é de minha crença que com raras exceções, as pessoas não aprendem – ponto. Os seres humanos, no que diz respeito à ética, moral e bom senso, não aprendem, mas sentem. Não importa que provas, argumentos, fatos ou estatísticas sejam apresentadas, o ser humano só mudará de opinião quando sua mente se abrir e, no milagre da evolução, ele contemplar a nova informação. Em termos simples, todos temos que descobrir a roda, pois enquanto nós mesmos não a virmos, testarmos, e acima de tudo, sentirmos, nem o maior gênio da humanidade será capaz de provar sua utilidade. Analogias à visão e ao despertar do Duhkha budista são válidas.

Entrando no abstrato e bastante pessoal assunto da moral e ética, do certo e errado, isto não é uma regra ~ é uma lei absoluta. As pessoas só aceitam seu comportamento errado quando de alguma forma sentirem o erro – seja finalmente um dia vendo as conseqüências negativas dos mesmos, seja observando os atos que fazem sendo feitos por outros. Só então elas ~ talvez ~ aceitem seu erro.

Para tais pessoas, todos os livros, documentários, psicólogos, filósofos, histórias ou até novelas serão inúteis: eles simplesmente “não vêem”, ou do inglês, “don’t get it”. Por vezes, inclusive, exaltam frases de efeito como se compreendessem ou aceitassem, apenas para 5 minutos depois cometer o mesmo erro. Para tais pessoas, este livro é inútil. Elas irão ou discordar veementemente para preservar seus ideais egoístas, ou aplaudir a obra, apenas para por na estante, indicá-la a amigos, e voltar a cometer os mesmos erros. O Ser Humano é assim, e não podemos fazer nada sobre isto.

Para os poucos que aprenderam os meios da empatia e sabem sentir o ambiente e a sociedade a sua volta, esta obra será de igual inutilidade, pois nada do que esta aqui escrito será novidade, e as que forem, provavelmente elas já praticavam sem saber.

Evitando, portanto, perder o tempo destes, e evitar perder meu tempo com os ataques egoístas daqueles, esta obra faz mais sentido nunca existir. As pessoas irão evoluir em seu próprio ritmo, em seu próprio tempo, em seu próprio belo crepúsculo que separa a escuridão do egoísmo da beleza altruísta da empatia.

No meio tempo, presenteio minha esposa com minha mente, minha alma, e no que ela ainda não souber ou discordar, sei que posso esperar respeito na réplica, e no que ela já faz – que é a maioria das qualidades humanas aliadas a uma fofura extrema, fica apenas a alegria de saber que não esta só neste mundo de hipocrisias egoístas.

Se por ventura esta obra vir a ser lida por outro, espero que tire o melhor proveito, e cá fica o aviso: o que esta exposto aqui, às vezes com bons argumentos, outras apenas leves impressões, é apenas minha “divagação utópica” do que o mundo poderia ser se as pessoas abrissem um pouco mais seus corações para com o próximo.

Também gostaria de deixar claro que esta obra faz extenso uso de uma abordagem empírica do conhecimento e filosofia, mas por vezes, ainda assim cita e menciona outros atores ou antigos sábios, mas que apesar destas citações, a obra é realmente de cunho empírico, e, portanto, tais citações existem apenas para ilustrar a semelhança de minha forma de pensar com a de outros em nossa história, e não como embasamento.

Dedico esta obra a minha esposa, que me ensinou metade do que sei... a outra metade me falta entender (talvez ao escrever esta obra).


Capítulo da lógica - O pequeno planeta

O pequeno planeta gira ao redor de seu próprio eixo em uma inclinação de 23 graus em relação ao plano de rotação do planeta em relação a seu pequeno Sol, a uma confortável distância em que a temperatura da superfície, aquecida por sua estrela, seja tal que a vida seja possível. Ao redor do planeta, uma bonita lua gira em uma órbita síncrona mostrando sempre a mesma face a seu planeta. Outros 8 (dizem agora 7, quem se importa?) ou mais planetas e planetóides acompanham este duo em sua eterna rotação ao redor de seu pequeno sol.

Já o pequeno sol gira lentamente ao redor do núcleo de sua galáxia, que por sua vez, infestada de outros planetas e sóis de vários níveis, se move lentamente, se distanciando de outras galáxias cosmicamente próximas.

Naquele planeta existe vida, e dentre as várias raças paira uma raça inteligente – um animal que não quer ser considerado animal. Uma raça que talvez ninguém mais saiba, ou talvez ninguém queira saber, mas que aos trancos e barrancos existiu esperando entender, por um breve momento, porque por mais que eles se desenvolvessem, evoluíssem e crescessem, sistematicamente todo verão tinham que lidar com outra forma de vida, inferior, completamente ridícula comparada a eles, mas que estava sempre presente: os pernilongos. Uma piada do grande criador do esquema do universo? Ou algo importantíssimo a se aprender?

Mas tudo isto acabou. Os sóis de todas as galáxias extinguiram seu combustível nuclear, os diversos buracos-negros sugaram toda a energia branca das galáxias, os planetas – com ou sem vida – entraram em uma eterna era do gelo, e a distância entre as galáxias tornou-se inimaginável. Agora que os pernilongos não existem mais, aquela raça inteligente não esta mais por perto para ver um de seus maiores sonhos realizados. Não existem mais pernilongos, mas também não existem mais verões.

Durante milênios aquela raça nasceu, cresceu, se apaixonou, viveu, aprendeu, descobriu, evoluiu, envelheceu e morreu. Chegaram a se considerar os donos do mundo, os donos do sistema, os donos da galáxia, os donos da verdade e do universo. Fizeram grandes progressos em todas as áreas – até as sociais- e deixaram sua marca em vários lugares. Mas agora, não há nenhum Ser para desfrutar de seus avanços, não há nenhum Ser em todo o grande universo para ver suas marcas, e talvez, as próprias marcas deixem de existir no gelo infinito do universo sem vida que restou. Talvez o colapso universal atraia toda a matéria de volta a um ponto inicial até o ponto em que a densidade de matéria seja tal que ela sofra uma grande explosão, reiniciando o relógio parado do tempo e recriando novos planetas, sóis, vida e raças inteligentes que irão novamente criar suas marcas neste novo universo, sem jamais saber das que vieram antes – igualmente serão destruídas sem marcas quando este novo universo colapsar. Talvez o universo continue a existir expandindo suas galáxias geladas para todo o sempre. Mas de uma forma ou de outra, aquela raça chegou ao fim, e nada nem ninguém no tempo ou espaço jamais verão suas marcas novamente. Seu legado, apesar de existente no tempo, tornou-se inexistente no sentido.

Conforme deslumbramos o cenário apocalíptico inevitável, uma pergunta paira. Para quê tudo foi feito? Quem ganhou com isto? Qual foi o significado, a razão e o objetivo de tanta dor e sofrimento das raças inteligentes e não inteligentes naquele e talvez outros planetas? Conforme observamos a anã negra resultante do colapso do pequeno sistema onde eles viviam, sem mais nenhuma marca de sua existência prévia, perguntamos repetidas vezes: qual foi o sentido de sua existência breve? Talvez a pergunta seja, precisa ter um sentido? Mas se não, então porque existir?

***

Tudo que existiu e existirá será em vão. Tudo o que for feito será apagado. Tudo o que sabemos e sentimos ou lembramos será levado conosco para o túmulo. Porque, então, viver? O passado nos criou, e o futuro que criarmos será inevitavelmente destruído junto com o universo. Viver pelo passado ou pelo futuro, portanto, não faz sentido. Só nos sobra, portanto, viver pelo presente.

Viver para honrar o sofrimento e a batalha dos antepassados para criar um melhor amanhã? Porque? se no final este amanhã invariavelmente irá desaparecer? No último segundo em que o último homem respirar, toda a história da humanidade e todas as conquistas farão algum sentido? O homem que morre se sente feliz pelo que fez? Talvez – porque ele acredita que terá algum sentido para os que ficam. Mas se não existirem seres que ficam nem aprendam ou continuem o que foi feito? E se o final de uma vida for o final de toda a existência e história?

Na verdade, tudo não é uma hipótese, é um fato. Tudo irá acabar. Porque escrever, por exemplo, se por mais que uma obra faça uma grande diferença para os leitores futuros, se estes leitores futuros e suas atividades eventualmente deixarão de existir tornando a própria obra inútil?

Mas a obra fez diferença para aquelas pessoas, para aquele momento. O segredo da vida não está no que nos fez – no passado – nem em nosso legado – no futuro, mas sim no presente, no que nós sentimos e o que vemos com nossos olhos, e no que deixamos para os outros a nossa volta no presente do agora - no breve momento de nossas existências.

A religião, portanto, surge como uma desesperada fuga da inevitabilidade da destruição, as pessoas criam várias religiões, vários Deuses, e depois competem para ver quem criou o melhor Deus, quem esta certo .. faz sentido? O mundo, sendo inevitavelmente destruído com o tempo, não teria sentido se a humanidade não acreditasse que de alguma forma suas atividades, individuais ou sociais, pudessem ser preservadas de alguma forma – mas se a ciência já provou que o tempo e espaço serão destruídos, então esta forma só poderia estar em outro lugar, algum lugar que não seja afetada pela inevitabilidade do tempo e espaço, um espaço que a ciência não consiga tocar, provar, e, portanto, provar seu fim. A religião baseia-se justamente na impossibilidade de ser provada – qualquer religião ou filosofia que seja palpável o suficiente para ciência explicar, provavelmente estará atrelada ao fim dos dias e, portanto, deixa de ser uma fuga para a inevitabilidade do tempo. “Encontrar Deus significa matar Deus” – ou seja, provar ou encontrar um Deus, provando sua existência dentro de nosso plano de existência (que inevitavelmente deixará de existir), automaticamente torna-o mortal, torna-nos mortais, torna nossa existência efêmera e sem sentido. A única verdadeira religião é aquela onde Deuses – ou nossas essências – são imortais. Não há de fato a necessidade de um (ou vários) Deuses, mas sim de um plano imortal.

A religião então encontra justamente na falta de prova e abstração sua força. Quanto menos provável que uma determinada crença seja afetada pelas leis que regem o universo, menor é a probabilidade – ou pelo menos pensam assim seus seguidores – que ela seja eliminada junto com o universo.

Portanto a opção que deve ser feita é simples, tão simples que confunde a todos: queremos acreditar que nossas vidas têm um significado, que nossas atividades valem alguma coisa, que tudo o que a humanidade passou e passará e nossas descobertas, bondades, guerras, crimes e alegrias significam alguma coisa, ou queremos acreditar que tudo não passa de uma grande ilusão, que não tem significado nem futuro, e independente de qualquer tipo de ação tudo será destruído – ou seja – nossa filosofia de vida não afeta em nada o resultado final e, portanto, podemos destruir ou construir? Diga-se de passagem, destruir, sendo mais simples, torna-se tentador? Talvez aqui esteja explicado porque as pessoas sem esperança e fé em um futuro geralmente tem tendências destrutivas.

Aqueles que querem acreditar que existe um significado pessoal ou social – ou seja – que o que eles sentem e aprendem é importante para eles mesmos, ou que o que eles criam e desenvolvem possa ser importante para os outros e para o futuro, inevitavelmente tem que aceitar que existe algo além de nosso espaço-tempo, além de nosso plano existencial que inevitavelmente será destruído – pois de outra forma, tudo seria em vão. Como isto ocorre, como nomear e como sentir esta existência varia de pessoa para pessoa, e desta variação, nascem as diversas religiões.

Aqueles que acreditam que nada perdurará e tudo será perdido, inclusive o significado de suas próprias vidas, tem uma infeliz vida de desespero, onde nada que façam tem significado. Ser um criminoso ou um herói é indiferente, pois não tem significado. É uma grande pena que algumas pessoas acreditem nisto, porque no fundo, estão deixando de aceitar que existem, que suas vidas podem significar algo. Estão negando a própria existência.

Se a segunda opção – da inexistência de algo mais – da inevitabilidade da destruição e esquecimento – estivesse correta, como explicar a autoconsciência dos Seres Humanos? Porque o leitor esta preso dentro de seu próprio corpo? Porque não naquele ou neste corpo? Porque a vida é vivida na primeira pessoa? Como explicar a complexidade e ao mesmo tempo simplicidade do mundo? Claro, aqueles que não acreditam na existência de algo a mais exatamente aceitaram que não há necessidade de se encontrar uma razão e, portanto, não importa se não faz o mínimo sentido que os seres humanos tenham autoconsciência. Não importa que você seja você, e veja o mundo em primeira pessoa. Não importa que você seja o personagem principal de um planeta cheio de outros seres humanos que não o reconhecem como personagem principal, pois – para eles – eles são o personagem principal.

Mas se não existe sentido, porque você é especial? Porque o mundo esta sendo “vivido” e “observado” de seu único ponto de vista? Porque você é o personagem principal – que por sinal ninguém aceita como tal? A consciência nos força a perceber que somos o personagem principal de nossas vidas, mas se nada perdura, como explicar porque você dentre bilhões de seres humanos possui esta consciência?

Apesar de tantos sinais, nada pode ser provado. No entanto, inegavelmente, temos apenas duas opções: Acreditar que somos um nada, um conjunto de átomos que acontece de estar se movendo e fazendo atividades que inevitavelmente serão destruídas com o final do universo, ou que temos uma razão de existir, e que apesar deste plano ser um dia destruído, algo perdura de alguma forma. Algo que a civilização fez terá significado – ou talvez – algo que fizemos terá significado, sendo a civilização apenas um palco. Para quem, para o que, como? Dificilmente – se não impossível – encontraremos uma resposta (pois estaríamos “tocando” Deus, tornando-o científico, e portanto matando-o. Deus, aqui e doravante nesta obra, significando um plano superior e não uma entidade). Mas o simples fato de aceitarmos é o suficiente para tentarmos o melhor de si para fazer valer.

Uma vida sem sonhos, sem objetivos e sem realizações não é uma vida, é apenas uma existência. Uma pessoa que não crê que algo de sua vida terá validade para futuras gerações (independente de se parte destas futuras gerações estará em outro plano de existência) nada mais é do que um pedaço de carne que consome energia. Porque sonhar em visitar um pais distante, sob o pretexto de que é um sonho que o deixará alegre, se no momento de sua morte tudo isto será esquecido e nada terá tido um mínimo de significado? Se a sua existência não tem um significado, por mais que aceite que neste ou aquele momento você esteja feliz, o tempo não para, e o momento em que você deixará de existir chegará. Sua memória ainda guardará os momentos felizes e significativos? Se nada perdura, a memória também será eliminada. Nada – nem seus sonhos realizados e momentos felizes – terão tido significado mesmo que tenham tido naquele breve momento em que ocorreram. Suas realizações talvez perdurem, mas o universo um dia chegara ao fim, todos que aproveitarem delas também igualmente morreram e a esquecerão, então qual seu significado?

Quando alguns realizam isto, ficam loucos, ficam desesperados, ou simplesmente se suicidam. “Qual é a razão de minha existência?”. Se esta fosse a realidade, quando todos a realizassem, a humanidade simplesmente tornar-se-ia um grande hospício de suicidas psicopatas sem rumo.

Certamente esta não é uma boa razão para vivermos, certamente não é uma boa razão para existirmos. A única saída lógica para aqueles que querem ter sonhos, esperança e fazer algo de útil para sua vida, ou o bem para quem ama, é aceitar que algo de sua atividade terá um significado. Somente assim você esta aceitando sua própria existência. Se você acredita que qualquer coisa por menor que seja tem um significado, então automaticamente estará aceitando que existe um plano existencial onde, quando este plano deixar de existir conforme já comprovado pela ciência, então suas atividades ainda terão um significado – seja para um, dois, ou muitos outros Seres.

E apesar do pequeno planeta ter sido destruído juntamente com todos os Seres e descobertas, ainda assim alguém estará observando, alguém que nunca ninguém na história daquele planeta conseguiu ver ou provar que existia, e dará então um sorriso, lembrando dos momentos difíceis daquele povo, inclusive a cruel dúvida de se alguém estava observando.


Capítulo da busca – Observador ou observado?

Então aceitemos por hora que existe um significado para nossa existência. Certamente, no entanto imediatamente começamos a tentar imaginar qual é este significado, e novamente entramos em um loop filosófico de causa e conseqüência. A existência e seu significado estão mais atrelados a nós, nosso Ego, nosso Ser, ou a nossa civilização, nossa sociedade?

Conforme sabemos, nossa civilização deixará de existir um dia. Os progressos científicos e morais que nossa sociedade tenham, por mais importantes e significativos que sejam, deixarão de existir. Mas isto talvez não seja o suficiente para nos levar a crer que o significado da existência não esteja dentro de um contexto global. Ainda assim, existe outra razão, ainda maior, para acreditarmos não seja assim: Se a razão da existência fosse global, se é uma evolução da civilização e da sociedade, então qual seria a justiça e sentido das existências antes do ápice da civilização? Apenas “bucha de canhão?” Apenas carniça jogada aos tigres? As pessoas e consciências que viveram na bela Grécia ou tumultuada idade média quando ambos os avanços tecnológicos e sociais estavam em sua idade da pedra não tiveram então nenhuma importância em si?

Claro, eles moldaram o início de nossa civilização, que esta ainda no começo de sua evolução social, mas pessoalmente, se a razão da existência fosse atrelada ao todo – à sociedade – o que aquelas pessoas atingiram? Elas não puderam experimentar nenhum avanço tecnológico, não puderam presenciar sociedades mais justas e boas, não tiveram as mesmas oportunidades de evolução pessoal que as pessoas no presente, e ainda mais no futuro, terão. O mundo, portanto, seria injusto com os Egos e Seres se sua razão fosse apenas para evolução da civilização... Civilização esta que como sabemos irá sumir com o universo um dia.

Fica, portanto, um tanto claro que parte, se não toda a razão da existência esteja embutida no Ser e não na sociedade ou no mundo. Nossa vida e existência na verdade esta relacionada ao que faremos ou deixarmos de fazer. Aceitando que os bens que façamos pela sociedade, mesmo sendo importantes para os Seres futuros, serão eventualmente destruídos com a humanidade, e seriam injustos com os que vieram antes de seus adventos, e aceitando a inevitabilidade do fim, temos, portanto que aceitar que o mais importante realmente é o que nossas ações farão para nós mesmos e àqueles imediatamente a nossa volta. O que aprendemos? O que sentimos? O que curtimos?

A razão de viver esta relacionada, portanto, a nossa experiência na vida. Não importa sermos ricos ou famosos, não importa sermos grandes cientistas ou criarmos grandes novidades para a humanidade, mas sim que aprendamos grandes coisas, que melhoremos nossa moral, que paremos um pouco de ser materialistas e tentar criar grandes coisas no mundo material – mortal como já sabemos – e tentemos entender que se algo perdura, e certamente não é o mundo material, então isto esta relacionada a nosso Ser.

E então perguntamos: O que exatamente somos? Se nossas ações são importantes para um plano superior, então nós fazemos parte deste plano superior? Possuímos uma alma? Somos mesmo os personagens principais de nossa vida, ou apenas somos observados por um personagem principal? Temos controle de nossas vidas, certamente, e podemos fazer o que quisermos com ela, mas não temos absolutamente nenhuma memória, ligação ou prova de Deus ou seu plano.

As religiões fogem disto com várias explicações. O espírito passa por um complexo sistema de “amnésia” (ou “anamnésia” segundo Platão) e, quando encarna, não se lembra de nada. Outras explicam que nossas memórias são apenas aquelas de nosso corpo, mas o espírito compartilha ambas, e portanto ao morrermos, apesar do corpo morrer, nosso espírito, que possui apenas uma espécie de “acesso de leitura” de nossas mentes, preservará o que aprendemos, o que vivenciamos, e poderá inclusive, juntando com suas próprias experiências, fazer ainda melhor uso do que observou em nossa existência. E assim portanto também existe a chance de que sejamos somente observados, de que a morte seja o fim, e que o observador esteja apenas observando nossa sociedade para aprender algo.

E se o mundo for um grande simulador de existência? Se formos apenas pequenas entidades autônomas dentro deste simulador que de tempo em tempo é reiniciado com novas variáveis de entrada para poder avaliar melhor o comportamento das entidades? “Esta civilização acabou se destruindo, vamos mudar um pouco as variáveis de entrada e ver como ela se sai agora ...”- pensou a entidade superior? O que foi a vida e existência das entidades? Nada? Talvez, mas nossas ações ainda assim tiveram uma importância para definir que a civilização foi um fracasso ou sucesso. Talvez seja possível que nossas ações agora tenham um reflexo no futuro que venha a fazer com que toda a civilização se redima dentro de um grande esquema, e no final, apesar da civilização ser eliminada, foi uma de nossas ações que a fez encerrar desta ou daquela forma. Ainda assim, isto não resolve o problema de nossa autoconsciência, nosso ego, e estaríamos voltando a pergunta deste capítulo: O universo existe para se experimentar com o universo em si, e nós somos apenas personagens secundários sem um grande papel no grande esquema, ou o universo existe para que nós, os personagens principais, aprendam algo dentro do grande ambiente proposto?

Apesar de presos dentro do universo e sem alternativas sólidas ou provas que possam nos indicar qual das alternativas seja a correta, nós temos uma prova sólida e inegável: nossa consciência. Apesar de não podermos provar que os outros possuem uma consciência, e que somos na verdade o único ser consciente do planeta e, portanto, por estamos vivendo em primeira pessoa, todas as demais pessoas e seres vivos não passam de personagens secundários – simulações ou falsos seres conscientes – ainda assim podemos aceitar que somos conscientes. E por incrível que pareça, partindo do suposto de que somos o único ser consciente, ou que todos os seres inteligentes tem uma consciência e, portanto, são autoconscientes, chegamos a conclusão que estes possuem uma parte importante no desenvolvimento do universo de qualquer forma.

Fosse o universo e sua razão de existir relacionada tão somente a como o grande esquema se desenvolve e analisar como ele chega a seu término a partir de um começo pré-determinado, então seria desnecessário, e talvez até um problema que adiciona um fator “aleatório” dentro da simulação, que um ou todos os seres fossem conscientes. Além disto, para uma simulação de grande porte, as entidades unitárias não precisam ser mais do que apenas autônomas. Se observarmos a história da humanidade, notaremos que se todos os bilhões de pessoas que já existiram e ainda existem fossem apenas pequenos robôs que seguem sua complexa, mas previsível programação, ou se eles são conscientes com uma alma, o resultado ainda seria o mesmo.

Podemos facilmente notar que o corpo humano pode ser autônomo e inteligente sem uma consciência. Pessoas que já passaram por uma cirurgia, ou nem precisamos ir tão longe, por algum evento em que precisaram ser sedadas, ou ainda mais comum, embriagadas, irão notar que naquele momento sofreram de uma grande falta de consciência e perda de memória. Tirando os embriagados e alguns tipos de sedativos, existem drogas que induzem o cérebro a este estado não consciente e sem memória, mas sem detrimento da inteligência. É por exemplo o caso do “Dorminoid”, muito usado para exames de endoscopia ou no sistema digestivo: A pessoa perde a consciência, “dorme”, não se lembra de nada. No entanto, segue as ordens do médico, responde perguntas normalmente. Parece um pouco embriagada por vezes, sem equilíbrio, mas não deixa de ser inteligente. E se todos os outros seres humanos, fora o leitor consciente, na verdade funcionassem desta forma? São seres inteligentes, mas não conscientes? Não temos como provar! Segundo Descartes, “Penso, logo existe”, então eu posso comprovar que eu existo. Segundo George Berkeley, “Existir é ser percebido”, então como sei se existo se não posso garantir que sou percebido? O primeiro afirma que eu existo porque penso, o segundo afirma que os outros existem porque eu os percebo. A única coisa que podemos concluir é que, se penso – e por isto existo e percebo – os outros existem. Mas nada disto nos leva a comprovar a consciência dos outros.

Da observação de nosso universo e seu desenrolar, do fato de que a consciência é secundária, supérflua, desnecessária e até uma complicação demais para um efeito mínimo ou inexistente, e do fato de que podemos provar pelo menos para nós mesmos que somos conscientes, chegamos a conclusão final sobre a grande pergunta: O universo e sua razão estão certamente mais relacionados ao que nós como entidades fazemos e aprendemos, do que com o que a grande civilização atinge em longo prazo.

Nós, como Seres, como espíritos ou entidades seja qual for a crença desejada em se encaixar esta filosofia, somos o foco da razão do universo. O que a civilização faz ou deixa de fazer, e seu destino, são supérfluos. Afinal de contas, deixarão de existir.

Apesar de podemos, portanto, concluir que entre a pergunta do observador ou observado somos ambos o observador e observado, e somos o personagem principal de nossas vidas, ainda não podemos comprovar que os outros realmente existem. Eu, como autor deste texto, sei que existo, sei que sou consciente, e, portanto, para mim, sou personagem principal. No entanto, não posso provar que o leitor é também consciente. Ele é um ser vivo consciente ou apenas uma entidade? Eu, por ser o personagem principal de meu ponto de vista, sou o único personagem? E se não sou, então todos certamente são os personagens principais de suas vidas. Se todos são os personagens principais, como aceitar as grandes diferenças nas condições de vida, oportunidades, tempo e situação de cada um? Porque alguns nasceram há 2000 anos e outros daqui a 2000 anos? Porque uns nascem em berço esplendido e outros na pobreza? Porque uns tem saúde e outros doença? Porque uns vivem alguns anos e outros várias décadas? Se todos têm o mesmo teor de importância por todos serem o personagem principal de suas vidas, como explicar esta grande variação de oportunidades?

Novamente voltamos a uma dicotomia: Ou o Eu que escreve sou o único personagem principal e, portanto, explica-se que as diferenças com outros Seres são irrelevantes, pois eles são personagens secundários deste grande universo; ou todos somos personagens principais de real importância para nós mesmos, e existe uma razão externa para a variação nas condições de vida de cada um.

Por mais que extrapolemos e filosofemos, no fundo, não conseguiremos provar qual das duas verdades é a correta. É provavelmente impossível provar a consciência de outro, afinal, toda a sua atitude pode ser atribuída a inteligência. A consciência é algo pessoal, interno ao Ser, que não pode ser provado para o mundo exterior, e, portanto, não podemos provar que o outro é consciente assim como não podemos provar aos outros que nós somos conscientes. Alguns exercícios de lógica podem até conseguir provar que somos conscientes de nosso papel, de nosso corpo e de nossa unicidade, mas ainda assim, podemos relacionar tudo isto a inteligência, e, diga-se de passagem, animais também têm algum nível de consciência do próprio corpo: O gato que se lambe e se limpa não seria consciente de que aquele é seu corpo? Culpar o instinto é o mesmo que afirmar que, sendo a consciência do gato uma conseqüência ilusória de instintos, a nossa é uma conseqüência ilusória da inteligência.

Aqui fica um exercício para o filósofo de plantão, tentar encontrar um modo de se provar consciente, ou provar que outro é consciente. No entanto, provavelmente por mais que acredite ter encontrado a solução, poderemos mapear para uma ilusão da inteligência: A única consciência que temos prova que é real é a nossa mesma.

Descartes já nos deu esta informação há muito tempo com seu famoso “Cogito, ergo sum” – Penso, logo existo. Com isto, ele quer provar a si mesmo que ele existe, mas é incapaz de provar que os outros existem. Ele também não prova sua necessidade de existência, apenas esta afirmando que existe, no entanto, ele necessariamente existe, e portanto, é possível que ele seja necessário.

Segundo o filósofo Irlandês Berkeley, “Esse est percipi” – Ser é ser percebido. Segundo Berkeley, se nós somos percebidos, se nossas ações tem uma conseqüência no universo a nossa vida, então nós existimos. Apesar de ser correto, Berkeley não prova sua própria existência, mas de forma interessante, ele prova que, do nosso ponto de vista, os outros existem, pois os percebemos. Apesar de não nos relacionar se esta existência é consciente, se é apenas em nossa própria percepção, se é apenas uma imagem de nossa mente, pelo menos Berkeley nos da uma informação importante: o universo a nossa volta existe, e faz parte de nossa existência.

Se unirmos a noção de Descartes de que existimos, e a noção de Berkeley de que o que percebemos existe, então podemos deduzir que o universo existe através de nossa existência. A limitação de Descartes e Berkeley nos impede de provar que o universo existiria sem nós, mas ao mesmo tempo, não prova que ele deixaria de existir se nós não existíssemos. A importância é que, para nós, o universo existe, e se ele existe, deve existir uma razão tanto para nós estarmos nele, como para ele existir em primeiro lugar.

Pode ser que o universo seja uma grande ilusão em nossa mente, e todas as outras pessoas só existam para nós mesmos. Pode ser que todas as pessoas existam, apenas não podemos provar, mas indiferente, qual seria o objetivo desta existência? Uma vez que não podemos provar a existência real dos outros, novamente, devemos voltar a atenção para si mesmos. Talvez seja irrelevante provar a existência dos outros, afinal, mesmo que a comprovemos, não podemos sentir ou saber o que pensam. A importância final permanesceria em nós, no nosso Ego, no nosso Ser. Somos, portanto, Observadores do universo, e observados pelo universo, e independente do universo ser consciente ou não, dos outros terem alma ou não, a nossa razão de existir será a mesma. Qual? Não sabemos ao certo, mas ela não sofre nenhuma alteração se provarmos ou não a consciência dos outros.


Capítulo da evolução – O que fazer com a consciência?

Conforme filósofos de outra era, e conforme neste texto deduzimos a nossa existência através de nossa consciência, o que necessariamente seria o objetivo de nossa existência? Se nós procurarmos a resposta nos filósofos do passado, iremos acabar encontrando a mesma lógica sempre, e portanto não faz sentido apenas citarmos os filósofos de outrora e acreditarmos cegamente que eles estavam certos: Como diria Gilles Deleuze, se algo é óbvio e amplamente aceito, não há nada de errado em voltarmos a origem, ignorando o que outros já afirmaram, e recriar a partir do zero – é o seu chamado empirismo, que afirma que se um conhecimento é transcendental, então ele será atingido de qualquer forma, mas que para podermos melhor compreende-lo, é necessário que nós mesmos o alcancemos, e portanto, utilizar o trabalho dos outros torna-se algo que pode ser incorreto ou tendencioso.

Talvez Deleuze estivesse apenas novamente afirmando o óbvio: As pessoas só aprendem quando sentem em si mesmas o objeto do aprendizado. O que realmente é importante geralmente não se ensina, mas sim se aprende sozinho, pois como bem sabemos, de nada se aprende da história, da escola, do mais velho: O mundo atual, o formando e o novo estão sempre cometendo os mesmos erros do passado, avisados na escola, ou ensinado por seus antepassados. Apenas quando um realmente aceita por si próprio a verdade transcendental, é que ele realmente a atinge. Talvez o Empirismo de Deleuze seja baseado nisto, ou talvez seja apenas uma noção que podemos mapear para este fato da nossa natureza.

E portanto, descrever todos os passos para atingirmos um ponto é importante para ajudar – mas não necessariamente garantir – a compreensão sobre um conceito. De fato, uma pessoa pode já ter pensado e concluído tudo o que os antigos sábios passaram anos – séculos – elaborando, enquanto outras podem passar a vida lendo tudo o que os sábios disseram, estudando e procurando a resposta, mas nunca a encontrando porque, de fato, ela esta dentro de você, e não fora. O transcendental – talvez – nasça conosco. Talvez seja como a “anamnésia” de Platão, onde a alma já tem todo o conhecimento em si, exceto que a “esquece” ao nascer. Nosso objetivo não é encontra-lo, mas sim aceita-lo.

Mas ainda assim, não custa darmos uma olhada no que já foi pensado sobre o assunto. Por exemplo, vejamos um pouco do que Aristóteles, aprendiz de Sócrates e Platão, tem a dizer sobre o caminho da virtude.

Segundo Aristóteles, um dos objetivos (se não o mais importante) do ser é atingir a virtude plena. Para tal, é necessário que o ser atinja, em ordem, três passos: Uma vida de hábito, uma vida de equilíbrio, e uma vida de beleza. A tradução das obras de Aristóteles sempre foi alvo de muitas interpretações, mas no final, o que ele realmente quis dizer é facilmente notado por aqueles que estão a procura da essência do conhecimento de Aristóteles, e não de sua tradução literal.

Como hábito, Aristóteles não afirma que devemos ser seres de hábitos que agem por impulso sem pensar. O que ele realmente trata em sua filosofia é que o ser nasce com hábitos: vícios e instintos, hábitos estes que, segundo Aristóteles, são impossíveis ou muito complexos de serem perdidos, sendo consideravelmente mais simples criar novos hábitos que os anulem. Se tivermos um vício, se temos uma característica que acreditamos ser incorreta, geralmente trabalhamos justamente para agir da forma oposta. No início é complicado, esquecemos, temos que colocar lembretes, os famosos lacinhos no dedo. Com o tempo, no entanto, esta tentativa de se anular nosso vício se torna um Hábito. Este é o Hábito de Aristóteles, o Hábito que nos aproxima da virtude ao anular um outro Hábito que outrora nos afasta dela.

Uma pessoa de Hábitos, portanto é aquele que aceita que muitas coisas precisam se tornar um hábito, porque muito antes de conseguirmos pensar antes de agir, nossos hábitos agem automaticamente, e portanto, para competir com esta agilidade, apenas novos Hábitos. Talvez Aristóteles nunca tenha aceitado que seja possível o oposto, jogar fora todos os Hábitos. No entanto, talvez dentro de sua genialidade, ele justamente nos diz que entre não ter nenhum Hábito e ser obrigados a pensar antes de agir, ou ter Hábitos virtuosos e positivos que nos ajudem em nossa busca pela virtude, a última opção é melhor.

O segundo passo é o equilíbrio, que vem praticamente como conclusão da explicação dos Hábitos: é necessário atingir um equilíbrio entre os Hábitos, e ai esta a genialidade de Aristóteles: Se tivermos um equilíbrio entre os Hábitos, então nenhum deles irá agir pois se anulam, e portanto, ao sermos uma pessoa de Hábito, ao contrário do que parece, não estamos nos tornando criaturas que agem apenas pelo Hábito, mas muito pelo contrário, utilizamos os Hábitos para se anular e permitir que possamos pensar antes de agir (pois uma pessoa com os Hábitos desequilibrados iria agir antes de pensar – por hábito). E ainda, não negando o primeiro passo, Aristóteles aceita que mesmo que alguns Hábitos existam de forma desequilibrada, se estes forem em prol da virtude, podem ser considerados equilibrados. Ou seja, o equilíbrio não é ter “n” hábitos positivos e “m” hábitos negativos de forma que “n” = “m” e se anulem, mas sim, ter hábitos positivos suficientes para anular os negativos, e talvez outros a mais que nos ajudem a agir de forma correta sem precisar pensar – mas nunca, obviamente, menosprezando a importância do raciocínio.

Finalmente, o último passo para atingir a virtude suprema é a beleza (que alguns traduzem como nobreza, ou bondade, mas beleza é mais abrangente e com menos laços pejorativos a seu termo). Basicamente, para Aristóteles, os atos de virtude são aqueles que podemos chamar de belos. São aqueles atos que quando fazemos, os outros afirmam ter sido um ato belo, da mesma forma quando fazemos algo errado, são chamados de atos feios. Para Aristóteles, existem 3 tipos de atitudes para a qual o bem pode ser caracterizado: o prazeroso, o belo, e o benéfico (ou em sua vantagem). O último é obviamente subordinado aos outros dois, pois o que é benéfico para todos é belo, e por ser belo, é prazeroso, e, portanto, pode-se dizer que o benéfico é uma forma de beleza ou prazer. Aristóteles eventualmente nos leva a crer que o prazeroso é belo em sua própria forma, e chega a conclusão que os atos bons são sempre belos.

Os sábios e filósofos sempre chegaram a conclusão que o objetivo da consciência é promover de alguma forma a virtude de Aristóteles. A razão é bem simples: se, como vimos antes, nada da sociedade ficará, nada de nosso Ser material ficará, e portanto, apenas podemos levar para outro plano nossas atitudes, é apenas natural acreditar que estejamos aqui para promover a virtude e evoluir nossos hábitos – equilibra-los, e atingir a virtude suprema da beleza dos atos. O primeiro sábio de todos não é assim chamado à toa.

Aristóteles também elabora sobre amor, amizade e justiça, e eventualmente conclui que o caminho da virtude é a amizade. O amor pode chegar a extremismos, a justiça pode ser complexa e gerar um ciclo de punição e benefícios, enquanto que a amizade é a única que gera a verdadeira virtude – e entre amigos, a justiça sempre prevalece, e todos se amam, englobando portanto os demais.

Se nosso objetivo é evoluir nossas virtudes, e o meio de atingir tal objetivo é estimular a amizade, temos ai o provável objetivo da existência. O Ser existe para evoluir. Como Aristóteles foi indiretamente um aprendiz de Platão, podemos nos arriscar a dizer que sua filosofia é Platônica. Ao notarmos que os ensinamentos destes sábios nos levam a conhecimentos transcendentais universais, acabamos dando o nome de “Platônicos” a tudo que é utópico ou talvez até perfeito. O objetivo “Platônico” do Ser, portanto, é a evolução através da beleza e amizade. Mas a beleza e amizade não seriam justamente a empatia entre os Seres?

Este também é um caminho compartilhado pelas religiões mais filosóficas, como o Espiritismo ou Budismo (inclusive o Budismo básico, não religioso). O Budismo, por exemplo, prega que nossa vida não deve ser apenas de trabalho nem apenas de diversão, mas sim uma linha bem no meio entre ambos – e de fato, os ensinamentos Budistas vão além: o equilíbrio não é, por exemplo, pegar um dia para trabalhar e um dia para se divertir, mas sim atingir o equilíbrio entre eles simultaneamente. É saber a hora certa de parar para um ou outro, é divertir-se enquanto trabalha, é se divertir com responsabilidade.


Capítulo do sofrimento – “Duhkha” e “Katharsis”

Segundo o Budismo, a vida é “Duhkha”, traduzido geralmente para “sofrimento”. Na verdade, uma tradução mais adequada é “incômodo”. Conforme Steve Hagen descreve em seu livro “Buddhism Plain and Simple”, a vida é como uma carroça com uma roda defeituosa. Conforme você anda nela, ela incomoda, cada buraco na estrada ou pequeno desnível causa um grande incômodo. As vezes a paisagem é bela, ou a conversa com o companheiro de viagem é interessante e você deixa de notar este incômodo, por outras temporariamente se acostuma e não liga, enquanto outros momentos se irrita e começa a reclamar o quão chato aquela “roda” é. O Budismo prega que no fundo, a origem do “Duhkha” é de nossa vontade (porque estamos na carroça afinal? Se queremos parar o “incômodo” basta sair da comodidade da carroça e ir a pé!). Basicamente, os 4 ensinamentos budistas são bem simples: Um, a vida é “Duhkha” (sempre algo nos incomoda); segundo, existe uma razão para este “Duhkha” (que são nossas vontades, sonhos, prazeres e objetivos. Não que estejamos errados em ter nenhum deles, longe disto, o Budismo em nenhum momento prega abrir mão de nossos sonhos ou prazeres, apenas nos informa que a origem de nosso incômodo com a vida são eles: enquanto não o alcançamos, conforme a vida nos mostra que atingir tudo que queremos não é tão simples, sofremos. Ou seja, se nós abríssemos mão de todos nossos desejos e anseios, talvez não tivéssemos mais sofrimento, mas ai isto não seria uma vida! A segunda verdade apenas prega que sofremos porque queremos e, portanto, temos que ter pelo menos consciência de onde vem o sofrimento se queremos seguir nossa vida); terceiro, existem modos de acabar ou evitar o “Duhkha”, que já fica bastante claro conforme vislumbramos a explicação da segunda verdade: temos que abolir e evitar qualquer desejo ou objetivo que não seja realmente útil para nós, concentrando-se apenas nos presentes e possíveis, reduzindo assim a quantidade de “origens” para o sofrimento, e para os que sobram (os sonhos e objetivos que optamos em seguir), temos que aprender a aceitar e lidar com a angustia ou frustração que dele possam vir. Finalmente, a quarta verdade são 8 caminhos para encontrar a redução do “Duhkha”, ou seja, dicas e idéias sobre como reduzir ao máximo o impacto do sofrimento em nossas vidas.

O Budismo básico não é bem uma religião. Apesar dele abordar vários aspectos religiosos, ele o faz apenas para demonstrar que a religião é uma enorme ~ se não a maior ~ fonte de “Duhkha”: As pessoas se matam por seus ideais religiosos, sendo que a religião é apenas uma especulação, uma idéia abstrata sempre longe da realidade, que cada um tem de como deve ser o mundo. Realmente, como encontrar a paz de espírito e uma vida sem sofrimento se seguirmos filosofias que não tem nenhuma base lógica nem concreta, e levanta mais perguntas do que respostas, como são as Religiões? Segundo Buda, o correto não é pensar se existe vida após a morte (os eternalistas), ou não (os materialistas), mas sim ... não ligar para isto, pois isto não é no fundo importante para nossas vidas no agora. Não teremos uma resposta, é apenas um incômodo, um sofrimento, ficar discutindo sobre algo que nunca poderemos saber a verdade.

O caminho óctuplo por vezes é interpretado de forma um pouco complexa pois é altamente abstrato. Alguns dos conceitos do budismo podem levar anos para uma pessoa compreender porque, de fato, são mais conceituais e filosóficos do que realmente parece. Em resumo:

1. Visão correta: implica o conhecimento das Quatro Nobre Verdades supracitadas;
2. Intenção correta: desejo de permanecer no Caminho que conduz à iluminação;
3. Palavra correta: falar de uma forma clara, e, sobretudo, não fazer uso de uma linguagem agressiva ou maliciosa. O iluminado só tem fala construtiva, nunca destrutiva;
4. Atividade correta: implica seguir cinco regras básicas, que são não matar, não roubar, não mentir, não ingerir substâncias intoxicantes e não ter uma conduta sexual incorreta; Todas, no entanto, dependendo de seu discernimento dependendo do contexto. Sua intenção é basicamente manter a mente limpa.
5. Meios de subsistência corretos: ter uma forma de ganhar a vida que não implique o sofrimento dos outros Seres (ou o próprio) e a desonestidade;
6. Esforço correto: praticar a autodisciplina de modo a evitar as paixões (sonhos ou objetivos exagerados e fúteis);
7. Memória ou atenção correta: implica a auto-análise constante dos pensamentos e ações;
8. Concentração correta: é o objetivo final, que é entrar no estado de Nirvana.

O primeiro caminho é compreender que a verdade é única e não pode ser conceitualizada, e a melhor forma é aceitar e conhecer as quatro nobre verdades (A vida é sofrimento, existe uma causa, existe uma solução, a solução pode ser alcançada pelo caminho óctuplo). Segundo Buda, não devemos depender de um livro, uma pessoa ou em absolutamente nada para criar nossos conceitos da verdade: devemos simplesmente vê-la. Seria como o famoso “dar um passo para trás e ver a grande figura”. Justamente porque as pessoas estão acostumadas a acreditar que sabem apenas aceitando uma versão resumida e empacotada da verdade, acabam encontrando problemas, discrepâncias e erros na informação, e portanto acabam ficando ansiosas que não sabem realmente o assunto. Se pararmos sempre para aceitar a realidade como ela realmente é, e não como alguém a descreve, teremos a visão correta: não devemos crer, mas sim ver. Uma vez que vemos a realidade, nada poderá mudar nossa iluminação, pois a realidade é única. É como a brincadeira da imagem da vaca proposta no livro de Steve Hagen. Trazido para nossa vida contemporânea, isto também implica que se queremos ver uma determinada realidade, devemos ir atrás dela sozinho, sem nenhuma tendência. Por exemplo, acreditar no que a mídia fala, dando suas versões empacotadas e tendenciosas, é um erro. Se realmente queremos saber (e ver) devemos pesquisar, ver todos os lados do problema, e nos livrar da manipulação e tendenciosidade dos outros.

O segundo caminho implica que devemos ter a intenção correta de nos livrarmos das origens do Duhkha e prosseguir para uma vida iluminada. Novamente não é tão simples como parece: a intenção de atingir a iluminação por si só não é correta, pois é uma inclinação da mente, um “bias”. A Intenção correta, na verdade, é não ter intenção alguma! Ou seja, livrar a mente de qualquer objetivo claro que possa nos causar ansiedade conforme não é atingido. É algo parecido com a idéia do primeiro caminho: não devemos ter a intenção de fazer algo, devemos simplesmente faze-lo. A intenção correta portanto é a ausência de intenção: pois devemos agir, e não ficar só na intenção. Em uma bela analogia, diz-se que o caminho da iluminação é tal que, se você começar a trilha-lo, já chegou ao fim, não existe “meio do caminho”, ou você se concentra com a visão e intenção correta, ou estará tendo uma mente tendenciosa e incorreta. A iluminação não possui um caminho, ou você a atinge, ou nem começou a encontra-la.

O terceiro caminho nos incentiva a ter a palavra correta: aqui, não estamos obrigando as pessoas a não mentirem, mas sim a agir de forma correta. Uma analogia muito usada é que o iluminado sempre fala e age em prol de unir e causar compreensão, tolerância e união entre as pessoas, nunca a separação e discordância. Faltar com a verdade as vezes pode ser parte da palavra correta se, no geral, ela for o caminho correto.

A Atividade correta, quarto caminho, muitas vezes oferece algumas regras básicas, mas de fato o budismo real não explicita nenhuma regra. Simplesmente afirma que devemos ter atitudes condizentes com nosso empenho em evitar o Duhkha, com a intenção e palavra corretas. Ao invés de ficar delimitando regras que podem ser mau interpretadas ou, pior ainda, seguidas ao pé da letra levando a problemas quando deveriam ser simplesmente interpretadas, a Atividade correta justamente pode ser interpretada como agir com empatia, com a virtude platônica.

O quinto caminho é relativamente óbvio: ter uma forma de vida e subsistência que não causem problemas para outros, que não sejam viciantes nem causem vícios. Novamente, através da empatia com outras pessoas e da virtude platônica, podemos facilmente compreender que existem profissões que não prezam pelo bem de todos e, portanto, não são formas de vidas dignas de alguém que quer evitar seu próprio sofrimento, ou de outros.

O esforço correto implica em não agir de forma que possam levar ao vício (seria o balanço da virtude platônica), ou seja, aplicar sua energia em atividades benéficas e iluminadas que não vão gerar mais sofrimento do que se não fossem feitas.

A atenção correta, sétimo caminho, é muito interessante. Muitas pessoas acreditam que a meditação, a limpeza da mente, se da ao agir de forma a limpar a mente de pensamentos e idéias inapropriadas para o momento, principalmente durante um ritual de meditação (que é muito usado no budismo como um momento no dia para relaxar o corpo e mente para se preparar ou recuperar de um dia). No entanto, a atenção correta justamente não é atentar em não pensar. É como tentar seguir uma simples ordem: “Não pense em um elefante”. É impossível, quanto mais você quiser não pensar em um elefante, mais elefantes vão aparecer em sua mente! A idéia da atenção correta é justamente ignorar os chamados “pensamentos passageiros”: deixe que eles venham, ignore-os, e eles irão passar. Em uma bela analogia, o iluminado em meditação é como uma montanha e os pensamentos são nuvens: elas passam, mas não derrubam a montanha. Durante a meditação, ou quando estamos nos concentrando ou atentando a algo, se pensamentos paralelos ocorrerem, não devemos atentar a eles de forma a tentar elimina-los, pois isto só os alimenta (Não pense em um elefante!), mas sim ignora-los completamente, pois assim como apareceram em nossas mentes do nada, irão sumir se não forem a atenção correta desejada.

Durante a meditação, vários pensamentos passam na cabeça da pessoa, até mesmo pensamentos como “estou fazendo a coisa certa?” ou “não estou conseguindo me concentrar direito”. A atenção correta prega que isto é normal, e a ação correta é apenas ignora-los e manter a atenção e concentração no que estamos fazendo, seja a meditação, seja nosso trabalho ou tarefa. Dar ouvidos à estas dúvidas ou pensamentos paralelos, mesmo que na tentativa de elimina-los, só vai alimenta-los (Não pense em um elefante! ... quando eu parar de escrever isto a cada parágrafo, ai sim você vai parar de pensar em um elefante!)

E de certa forma, para atingir a atenção correta, devemos ter a concentração correta, que é justamente concentrar-se em NADA. Obviamente, este caminho esta mais relacionado aos momentos de meditação onde estamos relaxando a mente e corpo, pois não podemos trabalhar ou seguir nossos sonhos nos concentrando em nada. No entanto, ao meditar e focar nossa atenção em nossa medicação, devemos nos concentrar no vazio, e ignorar “os pensamentos nuvens” que surjam para que eles sumam como surgiram: do nada, repentinamente. Alguns pensam que não meditam ou nunca meditaram. Estão errados. Quando vão para a cama e tentam dormir, estão nada mais nada menos que meditando – tentando se livrar de pensamentos e idéias para conseguir dormir.

O Budismo não prega ações nem inações, não exige nada da pessoa, de fato, você pode ser um Católico budista, um Protestante Budista, ou muçulmano Budista. O Budismo original é apenas uma filosofia de vida para reduzir ao máximo o sofrimento, o Duhkha, e assim melhorar nossa qualidade de vida. Obviamente, com o tempo, várias pessoas começaram a unir conceitos religiosos, rituais e costumes, e várias escolas do Budismo surgiram. Por exemplo, o Zen Budismo é uma religião budista amplamente difundida no Japão, é baseado no Budismo, nas quatro nobre verdades, mas adiciona crenças religiosas, cerimônias, rituais (para ajudar a meditação e atingir a iluminação propostas no budismo original), etc... mas não é realmente o budismo original de Sidarta. Da mesma forma que existe o Zen Budismo, existem dezenas de outras escolas Budistas pelo mundo, cada um com sua crença e rituais diferentes.

E é por isto que o Budismo é algo interessante para ser citado nesta obra a caminho da virtude Platônica: não estamos tratando do Budismo religião, mas sim de seu original conceito de forma de vida, que inclusive descarta a religião por ser uma origem extra de sofrimento. As verdades e caminhos budistas são muito parecidos com a virtude Platônica, e de fato, também podem ser atingidas seguindo a empatia por nós mesmos e por outras pessoas.

Não importa o budismo ou as filosofias virtuosas de Aristóteles, ambos pregam a mesma abordagem: o equilíbrio das emoções, a consciência da origem do sofrimento e sua manipulação e aceite, e a nobreza de nossas ações através da “beleza” parecem ser transcendentais.

Algo ainda mais interessante não é a semelhança entre a filosofia oriental do budismo e a ocidental de Aristóteles, mas sim notarmos que ainda antes de Aristóteles, Platão e Sócrates descreviam a anamnésia (em “Meno” e “Phaedo” de Platão), onde eles descrevem a alma como uma entidade não só eterna mas com o conhecimento infinito, sendo que, por opção ou no choque do nascimento, sofrem de anamnésia, ou esquecimento seletivo de todo o conhecimento. O aprendizado dos conceitos transcendentais, portanto, não são na verdade um aprendizado per se, mas sim uma forma de relembrar o que estava esquecido. Segundo Platão, é justamente a poluição da mente e do corpo que nos evita lembrar o verdadeiro conhecimento, e sugere a “katharsis“, ou purificação e limpeza da alma como forma de atingir o verdadeiro conhecimento: na “katharsis”, devemos nos livrar de todas as formas de sentimento e percepção obtida pelo corpo físico, pois este é sujeito ao erro, ele apenas nos dá uma forma conceitualizada e “enlatada” do que é a realidade, e então devemos nos aprofundar no raciocínio, na visão da realidade como é e não como parece, para atingir o conhecimento.

As semelhanças da “katharsis” de Platão com o caminho óctuplo de Buda são fascinantes. Mais uma prova que o conhecimento transcendental é único e que os grandes filósofos estão apenas “reinventando a roda”. Dando nomes diferentes, formas diferentes, ao que na verdade é uma única realidade. Ainda mais tarde, Jean-Jacques Rousseau repetiria muito destes conceitos em diversas de suas obras, como o “Contrato Social”, onde ele descreve o ser humano como originalmente bom (“O nobre selvagem”) cuja sociedade através de seus vícios, limitações e obrigações distorce e corrompe. Novamente, é livrando-se desta corrupção da sociedade – da propriedade privada e do prazer sensorial – que o “nobre selvagem” pode continuar bom. Já em “Discourse on the Arts and Sciences”, Rousseau chega a ponto de afirmar que a ciência e a arte são negativas ao ser humano porque em nenhum momento elas fazem parte da necessidade do ser humano, mas são apenas fruto da luxúria e orgulho, onde o homem tenta atingir ideais que, no fundo, nunca precisou. O artista tenta se aperfeiçoar em sua arte sofre tentando criar uma obra mais bela que a outra, sem notar que é um sofrimento vão. O cientista luta para ser reconhecido e desenvolver o bem da “humanidade”, esquecendo de si mesmo, muitas vezes acabando por descobrir e desenvolver recursos e tecnologias que são usadas para o mal, quando tudo que ele precisava fazer era agir com virtude e dignidade.

Segundo Rousseau, em “Discourse on Inequality”, o ser humano original tem apenas um instinto básico de se cuidar e uma disposição natural para compaixão e piedade (empatia), mas conforme a população aumentou, e a ciência e tecnologia deu mais poderes a governos enquanto religiosos e filósofos ampliaram a influência de seus ideais na sociedade, o homem acabou por se corromper.

Por causa de tantos conceitos e preconceitos dentro da sociedade e do Ego, nossos ideais distorcidos, sonhos sobre coisas que na verdade não precisamos, aspirações egoístas geradas por puro orgulho ou inveja, acabamos nos desligando do que realmente é importante, passamos pela vida sem viver. Diz o filósofo chinês Yang Chu ainda no século IV a.C.:

“Passamos pelo mundo numa trilha estreita, preocupados com coisas insignificantes que vemos e ouvimos, remoendo nossos preconceitos, passando pelas alegrias da vida sem sequer saber que perdemos algo. Nunca por um momento provamos do vinho estonteante da liberdade. Estamos verdadeiramente presos, como se estivéssemos no fundo do calabouço, atados a cadeias”.

Podemos encontrar outros filósofos que nos remetem de volta a katharsis ou a iluminação budista – inclusive esta obra. De fato, nós sabemos que eles estão corretos, é apenas muito difícil em nossa sociedade conseguir sobreviver abrindo mão do que a sociedade nos obriga a ter e ser.

Apenas aceitando e controlando o “Duhkha” (os incômodos da vida), quer seja com a iluminação (budista) ou a katharsis (raciocínio e emoção acima dos sentidos e percepções), podemos realmente ser livres. E uma vez livres, podemos voltar ao “Nobre Selvagem” de Rousseau, que era piedoso, com compaixão e acima de tudo, cheio de empatia.


Capítulo do Empatia como atingir a virtude Platônica?

E como atingir a beleza (do hábito, do equilibro, do bem), e a amizade (do amor e da justiça) de uma forma simples? Seguir o caminho Óctuplo do Budismo é uma boa idéia, mas também podemos nos esforçar em ter uma mente mais focada. Como visto, os caminhos Budistas são por vezes complexos, e podem exigir anos de estudo e meditação para serem dominados, mas na verdade o próprio Budismo aceita que todos temos a capacidade de nos tornarmos Budas (Iluminados) no agora, neste exato momento. O Budismo é um caminho para se tentar encontrar esta iluminação, mas existem tantos outros. Seria um tanto complexo pensarmos a todo o momento o que é o correto. Tentarmos localizar nossos hábitos incorretos e corrigi-los pode requerer muito tempo de análise, e ao localizarmos eles, como julgar se estamos conseguindo atingir um equilíbrio benéfico? Como saber se nossa amizade não é exagerada a ponto de chegar em um amor exagerado ou um descaso insuficiente? Como saber se nossas ações por mais belas que sejam não estejam promovendo o bem e justiça suficiente (ou necessárias)?

Apesar dos sábios de outrora terem atingido os conceitos transcendentais do Ser, sempre existiu uma grande discussão sobre a forma de atingi-los. Esta pode ser a causa de existirem tantas filosofias de vida, religiões e modos de pensar. Apesar de todos estarem tentando, de seu próprio modo, fazer o que acreditam ser “correto”, e a maioria o “belo” e o “bem”, o modo muda entre cada filosofia (aqui englobando religiões novamente). Algumas exigem muito do Ser como pessoa – autoflagelação, rezas, concentrações desnecessárias, adorações; outras exigem muito do ego, exigindo muito pensamento e filosofia, muita concentração e pouca ação, pouca emoção. De fato, talvez devamos voltar as bases da filosofia para encontrar a resposta: assim como em toda a enorme obra de vida dos filósofos da época de Aristóteles foi em encontrar uma resposta simples para suas complexas perguntas, a exemplo de como Aristóteles concluiu que a virtude suprema é atingida pelo caminho da beleza e amizade, talvez também devamos ir um passo adiante e simplificar ainda mais o conjunto de conceitos transcendentais que regem a vida.

Sem rodeios, podemos facilmente provar que a Empatia engloba todos os pensamentos Platônicos de beleza, bondade, equilíbrio, amizade, justiça, amor, hábito e evolução. A empatia é bela, pois ela representa o se preocupar com o próximo. Ela é boa, pois a preocupação com o próximo nada mais é do que a bondade em sua forma mais pura. Ela é equilibrada, pois a empatia real é aquela que compreende que para podermos evoluir é necessário um equilíbrio entre a preocupação com o próximo e com si mesmo, assim como um equilíbrio dos vícios para permitirem um discernimento claro do certo e errado transcendentais. A empatia é amiga, pois não existe empatia entre inimigos, apenas amigos tornam-se empáticos e preocupam-se com o bem estar do outro, a empatia é justa, pois ela é equilibrada e amiga, e obviamente, a empatia é uma forma de amor (que é uma forma de amizade), ela possui o equilíbrio do hábito e a constante evolução e do constante desafio de novas pessoas e novos problemas sendo enfrentados no dia a dia por força da empatia e não preguiça ~ ou seja ~ um ser empático naturalmente se esforça para evoluir pois assim é necessário para conseguir agir sobre sua natureza empática. Novamente citando religiões, a empatia é de certa forma a virtude alvo do Budismo: um ser que sinceramente tenta a salvação dos outros sem benefícios para si, mas sem esquecer de si. Já as religiões ocidentais também pregam a empatia ao afirmar “preocupa-se com o próximo” ou “respeitai o próximo”.

A empatia nada mais é do que sentir e se colocar no lugar do outro, do próximo, e com isto torna-se necessária uma compreensão e uma sensibilidade que permitam tal conexão entre as pessoas. Você precisa se acostumar a observar as sutilezas do mundo a sua volta, a observar a sutileza das pessoas, para poder compreende-las, pois as vezes, e talvez geralmente, é nos modismos e atitudes sutis que se encontra a compreensão do outro, e não nas palavras. Chegamos aqui inclusive a um ponto interessante. A empatia talvez seja a evolução natural da forma de comunicação entre as pessoas.

A linguagem escrita e falada, por mais elaborada e evoluída que seja, não é capaz de exprimir por completo todos os conceitos abstratos que regem o sentimento e a situação, ou o status quo, de um outro ser. Muitas vezes é necessário um grande livro com termos complexos para conseguir exprimir um sentimento ou objetivo, quando na verdade, observando-se atentamente os detalhes e sutilezas da pessoa em questão, poderíamos notar as necessidades e circunstâncias deste outro Ser sem a necessidade da palavra. Assim como um casal apaixonado e próximo ao ponto de ser chamado de “alma gêmea” aprende a saber como o outro se sente simplesmente com um rápido olhar para o parceiro, como se pudesse que por telepatia captar por completo a situação do outro, um Ser realmente empático poderia obter tais informações de qualquer um. É talvez a chamada leitura-fria que muitos falsos médiuns e falsos videntes usam para descobrir detalhes sobre uma pessoa apenas observando-a atentamente e fazendo perguntas precisas que lhe forneçam as peças para formar o quebra-cabeça complexo da psique humana que nem mesmo o observado percebeu estar passando.

Assim, aceitando que a empatia possa ser uma forma não só de alcançar a virtude platônica (ou de Aristóteles, mas considerando que estamos tratando de mestre e discípulo, talvez possamos considera-la uma virtude só), mas também uma forma de evoluir esta virtude ao ponto de substituir a limitada língua falada por uma língua de sutilezas baseada na captação da emoção do outro, também podemos concluir que a Empatia seja realmente o objetivo absoluto do Ser humano, pois se concluímos que a razão do universo esta no Ser, e o objetivo do Ser é a iluminação e/ou a virtude, então a Empatia é também este objetivo. Através da empatia, portanto, podemos atingir tolerância e respeito com outros, podemos ainda compreender os erros e acertos dos outros, compreender os erros e acertos da história, e até mesmo compreender os problemas da sociedade de uma perspectiva humana. É através da empatia que temos a habilidade de parar, pensar no “porque” do outro agir daquela forma, sentir o que ele sente, e então com um sorriso, compreender.

O maior problema da busca pela empatia como forma de virtude platônica é justamente que ela exige, pelo menos em um primeiro momento que pode durar anos, décadas, ou talvez a vida inteira, um grande empenho em atentar e se preocupar com os detalhes e sinais que as pessoas nos passam. E em um mundo onde o que mais reina é o egoísmo e a preguiça, a maioria das pessoas acaba escolhendo um caminho oposto ao da empatia, acreditando que a concentração em si – o egoísmo – seja uma solução mais adequada, afinal de contas, o egoísmo traz benefícios para si mesmo mais imediatos do que a empatia, enquanto que além de tardio, os benefícios da empatia geralmente são mais espirituais, mais de sentimento, do que realmente físicos.

Outro problema que evita muitas pessoas de conseguirem avançar a empatia é o preconceito geral de que o amor seja uma forma de sentimento individualista, ou seja, que um Ser pode amar apenas um outro Ser. É como se só pudéssemos ter um amigo, ou só pudéssemos nos preocupar com uma única pessoa. Fosse isto verdade, pais de vários filhos não seriam capazes de amar todos os seus filhos, mas sim apenas um, e ainda por cima com negligência do amor de seu parceiro. Isto não é verdade, o amor não é uma forma individual de sentimento, e de fato, ele não passa de um sentimento poderoso de amizade e empatia em relação à outra pessoa, mas não necessariamente, a apenas uma pessoa. Será que todo o amor e empatia que um sente por seu parceiro “alma gêmea” sejam únicos para com ela? Não seria belo acreditar que seja possível que este Ser possa demonstrar este nível de paixão pelos Seres humanos em outras pessoas, sentindo e se aproximando de todos da mesma forma, espalhando com isto a virtude? Ou estamos presos a podermos alcançar esta empatia plena apenas com uma pessoa de cada vez? Não creio. Podemos amar a todos, podemos nos aproximar e nos preocupar com todos. Claro, os mais próximos, os do dia a dia, tem uma atenção especial pois estamos também “empatizando” todos os dias e portanto sabemos bem de seus problemas e necessidades, enquanto que para com alguém que vemos e nos comunicamos menos, a empatia fica menos precisa. Mas nem por isto, menos importante.

O amor é um sentimento belo de empatia extrema que pode – e deve – ser compartilhado com várias pessoas. O Ser humano é capaz e deve amar mais do que apenas um companheiro. Por vezes, para esconder o fato de amarmos várias pessoas, colocamos rótulos diferentes em cada relacionamento para tentar fugir do preconceito da sociedade, e damos nomes diferentes a algo que é basicamente a mesma coisa: o amor “paternal”, o amor entre parceiros, o amor entre família, o amor de amizade, etc... Digo ‘tomato’, você diz ‘tomate’ ... é o mesmo sentimento de qualquer forma, é uma fuga hipócrita de algo que talvez todos no fundo saibam: o amor é um sentimento único, e não difere de uma forma para outra, apenas talvez de intensidade e forma, mas no fundo, nada mais é do que a virtude platônica em sua forma máxima: Empatia.

A diferença do amor com nossos cônjuges e o amor com nossos amigos não esta no sentimento, não esta na troca de palavras de mesmo significado “amor” e “amizade”, mas sim no nível de aproximação e, mais importante, intimidade, que se troca. Somos mais íntimos com nossos cônjuges do que com nossos amigos, mas o amor é o mesmo. Claro, certamente mais forte com aquele que estamos o dia inteiro, que queremos traçar uma vida de alegrias, ter um filho – mas ainda assim, o mesmo. Muitas vezes também há uma confusão no sentido do amor abstrato e amor sensual: estamos aqui tratando do sentimento humano amor, e não “fazer amor”. Obviamente sexo deve ser tido como algo mais íntimo e individualista, é de notório conhecimento que devemos ter uma vida sexual saudável no que diz respeito a não promiscuidade do Ser. Inclusive, diga-se de passagem, o Budismo promove o sexo seguro e consciente, ao contrário de hipócritas religiões como o Catolicismo que tentam evitar este impulso básico do Ser. Voltemos no entanto ao sentimento e deixemos o físico de lado.

Muitas pessoas tentam evitar amar outras pessoas do sexo oposto por medo de serem rotulados de traidores ou falsos monogâmicos, mas na verdade, estão só mentindo para si mesmos. A escolha do parceiro não implica na obsessiva necessidade de que você só ame este parceiro (apesar de assim ser o conceito geral que rege a sociedade), mas apenas implica sua devoção em vida para apenas uma pessoa – sua intimidade apenas com ela, seu compromisso em estar presente, proteger, e manter sua empatia/amor por esta pessoa em qualquer situação. No entanto, o que as pessoas falham ao perceber, é que amar outra pessoa, demonstrar empatia por outra pessoa, não reduz nem anula o que você sente por outras. O amor não vem em “1 unidade única” que, se distribuída para vários objetos de afeto, ira ser dividido em partes menores. O amor é ilimitado. O Ser humano pode amar várias pessoas com o mesmo afeto que ama a um, e de fato, se tentar, notará que ao amar várias pessoas, encontrará várias formas de exprimir sua empatia, de evoluir sua empatia, e talvez, em receber empatia. Aumentando sua rede de conexões emocionais, na verdade o ser humano pode de fato aumentar ainda mais sua capacidade de amar.

No final, expandindo sua capacidade de amar, o ser humano inclusive desvenda novas formas de exprimir seu afeto a outros. O monogâmismo é apenas uma restrição de cunho religiosa que restringe, coloca freios, e evita a evolução da empatia humana. Fosse o Ser liberado para amar a todos, provavelmente a soma total de tolerância e respeito entre os seres seria maior. No entanto, ao restringi-la, o Ser acaba sentindo-se reprimido e muitas vezes sofre por não conseguir extravasar todos os seus bons sentimentos para aquele um único (aceito) parceiro, e pode acabar por explodir em ações impensadas – inclusive podendo magoar justamente aquele que quer manter como único alvo de seu afeto. Ao conter seu amor, muitas vezes ele se transforma em ódio contra os diferentes.

A amizade é uma forma de amor, e deve ser explorada como tal. Devemos ter empatia com os amigos, com os conhecidos, e até com os desconhecidos. Elogiar, incentivar e dar meios para que os outros se sintam amados sempre será mais construtivo e mais recompensador do que reprimir seus sentimentos, muitas vezes portanto criando uma barreira emocional a sua volta. Os empáticos de plantão provavelmente sabem o que é o belo sentimento de fazer o bem, ou elogiar, um desconhecido, e ver o sorriso sincero de apreciação de seu ato inesperado. É fácil criticar, é fácil reclamar, mas poucos são capazes do oposto.

O elogio anônimo vale muito mais do que o elogio de um conhecido, enquanto que a crítica de um conhecido vale muito mais do que a crítica de um desconhecido. O conhecido sabe de suas circunstâncias e problemas, e, portanto sabe as complicações pelas quais você passa para atingir seus objetivos. O elogio do conhecido, portanto, por mais sincero que seja, vem de alguém que lhe respeita e compreende sua posição. O elogio de um desconhecido esta reconhecendo apenas sua ação, e elogiando a despeito de não saber suas circunstâncias. Já a crítica funciona do modo oposto. O conhecido justamente por saber de suas circunstâncias é o ideal para encontrar seus problemas e defeitos, mas por falta de empatia, por falta de sinceridade e uma amizade hipócrita, prefere ficar em silêncio, pois acredita que amigos não “criticam” amigos. A crítica do amigo geralmente é muito mais precisa e acertada do que a do desconhecido que não sabe as razões por trás de seu erro, que por muitas vezes já foi notado e você esta ciente e trabalhando para resolve-lo. É difícil o amigo criticar algo falso ou errado, enquanto é muito freqüente um desconhecido criticá-lo injustamente.

Critique seus amigos. Elogie os desconhecidos.

Através da empatia, portanto, aprendemos que o amor é um sentimento envolvente que pode e deve ser compartilhado com todos. Aprendemos que esconder nossos sentimentos baseados em hipocrisias da sociedade, além de não fazer bem a nós mesmos, pode acabar gerando “poços” de rancor e ódio que eventualmente estouram em outra área de nossas vidas. E também vemos que através da empatia, críticas são bem vindas quando bem estruturadas, e elogios são bem vindos justamente quando não estruturados. É muito fácil um pai elogiar o filho depois dele se dar bem no vestibular, tendo acompanhado seu estudo com afinco por meses e meses, passando madrugadas, fazendo cursinhos. Na verdade este elogio é em vão, “era de se esperar”, era quase obrigatório. No entanto, se ele falhar, o elogio “você fez o que pôde e sou orgulhoso de você, confio em você na próxima!” será um dos maiores elogios que esta pessoa pode ter.

Deixando a já utopia absurda deste mundo descrito tomar conta, podemos imaginar os benefícios de uma humanidade empática. Porque povos próximos, mas que sempre se odeiam, iriam iniciar guerras se aprendessem a observar melhor o lado do outro?  As famosas guerras que duram anos e no final ninguém se lembra do porque começaram. Dito, guerras são absolutamente inúteis. Veja por exemplo um bom exemplo, a Guerra dos 100 anos entre França e Inglaterra. O que ambos paises ganharam com ela? Nada. Hoje em dia são paises amigáveis. A falta de empatia nos povos e dirigentes permitiram um rancor infantil e ganâncias terrenas reger uma guerra por décadas para pouco ou nenhum benefício final – talvez apenas liberar o rancor no outro. Talvez a globalização e a agilidade de comunicação trazida pela internet nos ajude a nos aproximar mais de nossos vizinhos e evite mal entendidos e guerras – pela comunicação conheceremos melhor o ponto de vista dos outros, será mais fácil sentir empatia para com eles, e portanto, as guerras talvez reduzam.

A própria sociedade capitalista é uma contradição a idéia empírica de que devemos seguir o caminho da virtude: Como vamos ser seres melhores se a preocupação principal é ganhar em cima de outros que vão perder? É concorrer? O capitalismo é uma forma animal de sociedade, parecida muito com a lei da selva. “Os mais aptos vencem” (e nós sabemos que tanto na natureza, como no capitalismo, isto nem sempre acontece, pois os aptos do momento podem não ser realmente os aptos a longo prazo). Já no começo do século 20 diziam Pierre-Félix Guattari e Gilles Deleuze (Anti-Oedipus (1972) A thousand Plateaus (1980)) que a teoria Freudiana sobre o capitalismo teórico de que o desejo é uma forma de falta, e o único modo de se encontrar estes desejos é consumindo-os (daí temos o termo “sociedade consumista” quando estamos falando sobre o capitalismo) esta errada. Eles acreditavam que o desejo é uma força produtiva. A sensação de falta não precisa ser necessariamente preenchida por um consumo, mas também pode ser preenchida com um produto, por nós mesmos. Você quer, você cria e corre atrás, e você produz. É um belo modo de se elaborar uma sociedade onde as pessoas trabalham e criam por necessidade, vontade,e não obrigação.

Obviamente, tal sociedade necessitaria de uma quantidade de Seres empáticos – iluminados (Budas?) - muito superior aos não empáticos, prontos para trabalhar pelo bem dos outros, prontos para criar pela sociedade de forma teoricamente gratuita (teoricamente, pois funcionasse esta sociedade, você ganharia o trabalho dos outros, enquanto eles ganham o seu trabalho). A bondade e empatia, a virtude platônica, é provavelmente a chave para se atingir tal estado. Infelizmente, nossa sociedade é muito terrena e egoísta para conseguir trabalhar desta forma, e portanto, apesar de não perfeito, o Capitalismo com todos os seus defeitos é o dique que segura nossa sociedade precária.

E não é só o capitalismo que tem seus problemas, mas a ilusão da liberdade dada pela democracia também polui as mentes das pessoas. Em sua breve obra “On Liberty”, de John Stuart Mill (1859), Mill descreve a democracia como a “tirania da maioria”. Até hoje a maioria das discussões sobre democracia, sociedade e formas de governo remetem à “On Liberty” como o marco inicial sobre a controvérsia da “tirania da maioria”. A tão badalada democracia não deixa de ser uma tirania dos que tem mais quantidade ~ mas não necessariamente qualidade. E novamente, por mais imperfeita que seja, a democracia é provavelmente o melhor e único modo que funciona em nossa sociedade.


Capítulo da continuidadeA perfeição imperfeita.

Mas porque o interesse repentino por atingir a virtude ou iluminação? Os preguiçosos ou que não se importam sempre questionam o mérito de se esforçar em fazer o bem, o certo, ou o bom. Afinal, pensam eles, ser egoísta é muito mais lucrativo do que ser altruísta.

Certamente ser egoísta é lucrativo, no entanto, falham ao notar que o egoísmo gera um bem estar momentâneo e o indivíduo precisa ser constantemente egoísta para manter seus “lucros”. Também falham ao notar que o altruísmo gera uma sensação agradável de bem estar que nunca seria conseguida com atitudes egoístas. Ao andar na rua, observando as pessoas, e pensando “gostaria de que elas sorrissem, fossem felizes, gostaria de compreende-las melhor, saber o que as aflige, como posso ajudar” já gera um posicionamento empático que nos faz sentir melhor, nos faz sentir parte do mundo, enquanto que o egoísta volta sua mente para dentro, isolando-se do mundo, querendo apenas o bem próprio. Mais, quando o altruísta e empático consegue fazer o bem a outro, uma agradável sensação percorre o mesmo. O sorriso do outro acaba induzindo o seu sorriso. É como fazer algo de bom por quem amamos: o pequeno sorriso daqueles que amamos pode fazer nosso dia brilhar. No entanto, e se nós amarmos a todos? Então qualquer ato gentil que fizermos fará nosso dia brilhar!

O altruísmo também nos traz um mundo mais equilibrado. Esta ainda para nascer o ser egoísta que no futuro receberá como conseqüência de seus atos o altruísmo. O egoísta deve ser sempre egoísta, pois fazendo apenas inimigos, deve manter a guarda levantada. O altruísta não cria inimigos, pelo contrário, cria amigos que irão o ajudar em sua causa, e o ajudar quando ele precisar.

Quando discutimos o pequeno planeta ao redor de sua estrela, e então chegamos a conclusão que nada material perdurará, notamos que de igual forma, a maioria dos desejos, por serem materiais, também são temporários. Podemos nos sentir bem com um novo produto ou objeto de desejo, mas esta sensação é passageira. As vezes um novo produto é lançado e rapidamente queremos repor nosso item obsoleto, outras simplesmente notamos o quão superficial era a sensação de bem estar proporcionado por um item material. Também notamos que qualquer tipo de evolução material que possamos fazer como indivíduo ou como civilização são, no final, em vão, pois o universo um dia deixará de existir, junto com qualquer legado que possamos deixar.

E, portanto, conforme concluímos, se qualquer razão de ser esta em uma possível existência imortal, a alma ou espírito, então igualmente qualquer bem estar correto, qualquer virtude correta, esta nesta existência imortal. Assim como o único bem estar real é aquele que remete à alma, e portanto não é material, o único legado que podemos deixar é nosso relacionamento e envolvimento com outras almas. O egoísmo, portanto, não gera absolutamente evolução, melhoria ou bem estar (a longo prazo), pois ele não se mantém por si só. No entanto, através da empatia, geramos o bem a outros, e com isto, além de nos sentirmos bem por termos trazido alegria a alguém que temos empatia, acabamos gerando uma reação de causa e efeito, além de evolução pessoal. Alguns podem ignorar sua boa ação, alguns podem até tirar proveito de seu altruísmo, mas no final, a maioria irá absorver sua empatia de forma a retribuí-la, nem que seja a outro.

O universo é imperfeito, não há dúvidas sobre isto, no entanto, o universo também é perfeito, pois ele nos permite uma eterna evolução. Como na filosofia do Ying Yang chinês, podemos dizer que o universo é a união do perfeito e imperfeito, ou ainda, é a perfeição imperfeita / ou a imperfeição perfeita.

Se o universo fosse perfeito, se o mundo fosse perfeito, se não tivéssemos problemas nem sofrêssemos, então porque viveríamos? Qual seria nosso objetivo? Se fossemos perfeitos, porque existir? O perfeito não faz sentido em existir por si só. Da mesma forma, o imperfeito estático não faria sentido em existir: se ele é estático e não pode ser aperfeiçoado, porque viver ou tentar melhorar?

O universo, portanto, só tem uma razão de existir – e portanto só existe – porque ele é dinâmico. E só existe o dinamismo se existir a imperfeição, pois o perfeito não é dinâmico, não evolui (algo que pode evoluir não pode ser chamado de perfeito, pois ainda não atingiu a perfeição!). De fato, podemos inclusive extrapolar e dizer que apenas o imperfeito é perfeito, porque apenas o imperfeito permite evolução, mudança, e, portanto dinamismo. No entanto, no tempo infinito do universo, seria de se esperar que eventualmente tudo atingiria seu estágio equilibrado de perfeição, o universo teria um fim perfeito, e então, deixaria de ter razão de existir.

Segundo Kurt Godel, qualquer sistema de princípios, ou seja, qualquer lógica, é essencialmente incompleta. Ou seja, qualquer lógica, por mais exata e perfeita que seja, é incompleta: sempre existirão perguntas que, para serem respondidas, necessitam um novo conjunto de princípios para ser respondida. Ou seja, dentro de um conjunto de princípios, existem algumas perguntas que não podem ser respondidas sem que criemos novos princípios, e ao criarmos novos princípios para nosso conjunto, estaremos também criando novas perguntas que não podem ser respondidas.

O teorema do princípio de Godel gera muitas repercussões bastante interessantes: primeiro, não existe um estado de perfeição, pois qualquer estado essencialmente possui perguntas que não podem ser respondidas sem a criação de novos princípios. Uma analogia válida é a de que o ser humano não poderá nunca compreender seu próprio cérebro e funcionamento: quando ele finalmente compreender como seu cérebro funciona, ele terá criado novos conceitos dentro de sua mente que não estão cobertos por esta compreensão, e, portanto, ele precisará expandir novamente sua compreensão... e este ciclo se repete infinitamente.

Uma prova simples do teorema do princípio de Godel é formada pelas duas frases:

A frase abaixo é verdadeira
A frase acima é falsa

Apesar de incrivelmente simples, note que compreendemos perfeitamente o significado de cada uma das duas frases. No entanto, se tentarmos solucionar o problema que elas propõe, não conseguiremos. Precisaremos criar novas teorias ao redor das duas frases. E estas novas teorias, segundo Godel, estarão sujeitas a perguntas sem resposta.

Assim como não podemos ver nossas faces com nossos próprios olhos, não seria inconcebível esperar que nós não podemos representar todas nossas estruturas mentais através de símbolos para representa-los? Todos os teoremas de matemática e lógica envolvidos nos sugerem que uma vez que atingimos a habilidade de representar nossa própria estrutura seja atingida, então chegamos em um ciclo infinito: não poderemos nunca representar nós mesmos de forma total, pois qualquer modelo que façamos de nós mesmos é essencialmente incompleto pois não possui o modelo que acabamos de fazer. É como uma imagem sendo refletida infinitamente por 2 espelhos.

O universo, de certa forma, nada mais é que um ciclo de Godel. Nada nunca será provado, porque por mais que tentamos, cada nova teoria gera mais perguntas do que respostas. O universo nunca irá atingir a perfeição, pois se ele é imperfeito, este estágio de imperfeição não pode atingir um estágio de perfeição completo.

Para que o ciclo do universo funcione, temos que idealizar justamente o fluxo entre nosso universo material e o provável universo não material. Conforme nosso universo evolui, ao mesmo tempo, de alguma forma, a perfeição gera imperfeição. O combustível do universo imperfeito em que vivemos nada mais é do que a perfeição. É a perfeição da criação, da alma, que surge em nosso universo para criar imperfeição. E esta imperfeição evolui, e eventualmente deixa nosso universo limitado.

Não é nada muito complexo notarmos que a tendência desta evolução das almas é a empatia, e que a empatia perfeita é a compreensão infinita do outro. No entanto, conforme notamos, e conforme Godel mesmo provou matematicamente, para que esta compreensão perfeita ocorra, novos fatores e novos conceitos precisam ser jogados na fórmula. Assim como a compreensão perfeita só pode existir se nós pudermos saber e sentir exatamente o que o outro pensa e sente, e desnecessário dizer que isto não é possível em nosso universo físico, notaremos que a evolução completa só pode ser atingida se as almas se unirem, formando um único ser infinito – perfeito. E para ser perfeito, este ser continua um ciclo de evolução, gerando a imperfeição – o nosso universo.

Talvez Deus – um ser imaginário criado em várias religiões, não exista, mas o que exista mesmo é justamente pura e simplesmente a existência: o universo, a existência, é o que chamamos de Deus. Esta perfeição é Deus. Porque um ser perfeito não pode existir, pois ele seria estático! A perfeição só pode existir se ela for um infinito ciclo de imperfeições atingindo perfeições, e perfeições expandindo em imperfeições. Isto não combina com nossa idéia de Deus entidade, mas se notarmos, combina com nossa idéia do universo como um todo.

O único caminho para toda a imperfeição do universo, portanto, é evoluir, e o único modo de evoluir, tendo em vista que o material é passageiro, e que nós isoladamente não podemos atingir a perfeição conforme bem explicitado pelo teorema do princípio de Godel, é se abraçarmos todo o universo simultaneamente, formando um ciclo infinito de perfeição imperfeita. Para tal, basta expandirmos nossa empatia. Enquanto criaturas materiais que somos, existe um certo limite para quanta empatia podemos perceber e gerar, mas ainda assim, sabemos ler nos maneirismos, no jeito, nas expressões e no tom de voz de cada um, detalhes do que pensam e sentem. Podemos não ver o que pensam, mas podemos ter uma boa idéia. A empatia é o mais próximo da perfeição – da virtude – da iluminação – que podemos chegar enquanto Seres imperfeitos que somos.

Podemos, claro, optar por não notarmos a beleza da virtude de Aristóteles, ou da Katharsis de Platão, ou da iluminação de Buda, ou da bondade Espírita, ou ... tantas outras teorias. Podemos optar por sermos egoístas, por aproveitarmos dos que são empáticos, usarmos as pessoas para nossos próprios benefícios. No entanto, estaremos apenas adiando o inevitável. Por mais que nos prendamos ao material e ao egoísmo, só estaremos adiando nossa estadia como seres imperfeitos – e como tal, estaremos sempre sujeitos ao Duhkha – sofrimento e incomodo. Talvez seja hora das pessoas começarem a notar que a maior origem de sofrimento é justamente seus próprios pensamentos egoístas e hipócritas correndo atrás de sonhos idiotas e supérfluos. Repetindo novamente passagem do chinês Yang Chu, “passando pelas alegrias da vida sem sequer saber que perdemos algo” – e a verdadeira alegria é trazer alegria não só a nossa vida, mas ao universo a sua volta.


Capítulo do fim – Shinigami

Antes de concluir esta obra, ainda falta algo que gostaria de trazer à discussão, que é a abordagem sobre a inevitabilidade do tempo, e com ele, do fim. Em desespero com a consciência do fim, a humanidade cria teorias e religiões para tentar se apegar a algo que lhes garanta uma continuidade. Ao mesmo tempo, quando perdemos algo querido, sofremos muito – talvez mais do que deveríamos. Aqui, portanto, faço uma analogia à filosofia oriental de lidar com o tempo e a perda.

Dizia Francisco Xavier (ref. Espiritismo) que a civilização Japonesa, ou talvez a Oriental no geral, “é a mais evoluída do planeta”. Não é para pouco, para aqueles que conhecem a fundo a forma com que os Japoneses lidam com a perda e com o tempo sabem que é uma forma mais saudável e humana do que a ocidental.

Em um famoso “blog” na internet, “I’m an English teacher in Japan”, o autor sob o pseudônimo de Azrael nos conta como a escola em que ele leciona reage à morte de um de seus alunos. Logo no começo do dia letivo, Azrael já nota que há algo de errado entre os professores, principalmente porque foi chamada uma assembléia geral de todo o corpo dissente e docente. Durante a assembléia, ele descobre que um de seus alunos morreu em um acidente. Os alunos da mesma sala estão em lágrimas, a namorada do aluno não consegue se conter e precisa ser retirada a força por amigos. No entanto, para o melhor espanto de Azrael, durante a tarde as aulas voltam ao normal, e os alunos praticamente voltam a suas vidas normais. Em uma aula de inglês, ele observa a namorada que antes viu desesperada em prantos rindo com suas amigas. Pela noite, o dia a dia da escola esta praticamente normal. No final de uma de suas aulas, ele pergunta para a professora assistente que não esperava que a aula corresse tão bem, e ela comenta para seu espanto: “Sim, é muito melhor ver suas faces sorrindo não é?”

Alguns dias mais tarde a classe teve um período de folga para ir ao funeral. Do funeral, voltaram direto para a escola para uma aula, onde novamente ele esperava encontrar luto e tristeza, mas para sua surpresa, até a namorada do falecido estava empolgada com o jogo de Inglês proposto pela professora. No final o grupo da namorada ganhou graças a algumas “manipulações” da professora assistente, que afirmou para Azrael: “Eu queria que ela ganhasse”

Isto ilustra como os Japoneses lidam com a perda. Para eles, parar o seu dia a dia e ficar preso em um luto de dias, meses ou anos, é um desrespeito ao que partiu. “Ele não gostaria que fizéssemos isto”, ou ainda “temos que viver a parte dele também”. É uma espécie de empatia pelos “mortos”, pela alma que parte. Mas também é uma empatia a todos que ficam, não rompendo e parando sua vida porque alguém simplesmente partiu para outro plano.

Nosso tempo na terra é limitado, e se comparado com a imensidão do tempo e espaço, é minúsculo. Temos que aproveita-lo, mas temos também que ter ciência que ele em breve chegará ao fim. Apenas os desavisados e ignorantes realmente sofrem tanto com a morte de outro: é algo previsível, esperado, e até belo, pois faz parte de nosso ciclo de evolução, independente da crença ou religião. Porque então sofrer tanto por algo que já sabiamos? Talvez o correto seja sorrir e lembrar “ele teve uma vida digna, foi um bom amigo, e agora partiu”.

A filosofia Japonesa inteira ensina, desde cedo, que nossas amizades e relacionamentos são passageiros. Talvez por causa da base Budista que nos ensina a não sermos escravos de nossos sonhos, também nos ensina a não sermos escravos de nossos sentimentos. Muitas obras orientais ilustram como a juventude lida com a separação dos amigos ao terminar a faculdade, cada um indo para um lado, talvez para nunca mais se verem. No entanto, por mais triste que seja a separação, todos estão preparados, e ficam na verdade felizes em ver seus amigos seguindo suas vidas. Quando eventualmente conseguem se encontrar no futuro, agem como não tivessem estado separados nem por um segundo.

Alguns ocidentais desgostam destas obras, afirmam “porque eu iria gostar de algo que joga na minha cara que meus melhores dias de amizade e alegria já passaram?”. É a atitude padrão ocidental em não aceitar a passagem do tempo. Os orientais no entanto gostam deste tipo de obra, pois os lembra que estes dias existiram, e que estão para sempre com você. Só porque algo passou e pode nunca mais voltar, não quer dizer que não esteja mais em você, no seu Ser. Se negar a aceitar o passado é muito triste, e querer evitar estas lembranças nostálgicas só porque lhe faz sentir mal por ter perdido algo de bom (como disse o poeta chinês mencionado já duas vezes), é hipócrita. O correto é justamente ficar feliz ao relembrar nossos bons momentos, e carrega-los conosco em nossos corações – uma empatia por si talvez?

A morte é apenas uma transição, e faz parte de todos que “ficam” continuar a vida e, em respeito aos desejos daquele que partiu, continuar sua vida ao melhor. Nas escolas orientais, por mais que um aluno se vá, o resto do ano sua cadeira é ocupada por um vaso de flores. Os pais continuam fazendo o prato de comida em todas as refeições e deixando no lugar onde o membro da família costumava comer, são oferecidas oferendas no túmulo. Os que partiram não são jamais esquecidos, mas a vida continua sem interrupções enormes para um luto desnecessário. De fato, eles são mais lembrados pela sociedade e todos a sua volta do que na sociedade ocidental, exceto que a sociedade não para, não muda ou fica em um luto parado, mas sim continuam com o ciclo da vida.

Enquanto no ocidente temos lutos, grandes recepções e os mais ligados à pessoa se destroem em luto e muitas vezes não se recuperam pelo resto da vida, sendo que a sociedade rapidamente esquece aquele que foi, e a cadeira da escola é rapidamente substituída e reutilizada por outro, ou pior, removida para que ninguém “tenha esta lembrança triste da perda”, na filosofia Japonesa, e oriental no geral, a sociedade mantém a memória do que partiu, e os indivíduos continuam suas vidas em memória a ele. É uma abordagem muito mais pró-ativa do que a ocidental. “Realmente, porque eles não deveriam estar sorrindo?” Imagina Azrael confrontado com tudo.

O luto é algo pessoal, e não deve atingir nosso dia a dia e afazeres. Muito pelo contrário, é nosso dever viver nosso melhor em homenagem e memória daqueles que não podem estar conosco para apreciar o momento. Devemos sim relembrar os que partiram para sempre, pois assim como nossos bons momentos passados, estes fazem parte de nós para sempre, mas não devemos nos prender ao passado e parar de viver. Podemos, talvez, chamar de uma empatia com a imagem, do conceito da pessoa, com o espírito eterno que partiu.


Conclusão - Capítulo das três pessoas.

Existem três tipos de pessoas: Aquelas que não se importam; aquelas que se importam apenas consigo mesmas; e aquelas que se importam.

As primeiras, maioria em nossa civilização, são a causa da maioria dos problemas do mundo: complacência, displicência, mediocridade, e em certo teor, algumas características como egoísmo, desonestidade, superficialidade. Já o segundo tipo é também em grande número, e são os piores tipos de pessoas: se importando apenas consigo, são conscientes e inconscientemente egoístas, fazem tudo por si, e obviamente, são os desonestos, os malandros, aqueles que sugam a civilização sem dar nada em troca (enquanto o primeiro tipo ainda da algo – medíocre – mas dá), e geralmente responsáveis pelos maiores danos e crimes dentro da sociedade. Finalmente, os últimos, são empáticos, se importam com os outros, são altruístas e na sua maioria honestos e pessoas de bem. Infelizmente, são a minoria.

As primeiras provavelmente pararam de ler este texto a muito, o taxando de entediante, utópico, lúdico, ridículo, e perda de tempo – afinal, quem se importa? Eles não. São complacentes com todos os problemas do mundo, gostam das informações empacotadas dos noticiários, ficando totalmente alheios a verdade real (conforme o primeiro caminho óctuplo do Budismo), são os últimos a reclamar, e obviamente como é da natureza humana, quando reclamam, já exauridos e exaustos de tanto serem complacentes, o fazem de forma cruel, violenta e desumana. O segundo tipo talvez tenha lido até o fim, a procura de algo que possa ser usado em benefício próprio, ou parou quando notou, algo que logo notará, que não encontrará este benefício egoísta neste texto. Vão taxar o texto de apenas opinião do autor, de uma desilusão e alucinação do autor, completamente fora da realidade e, portanto inútil e talvez até danoso, pois pode dar esperança de melhoria para alguns – melhoria estas que, em suas mentes, significa maior dificuldade em atingir seus objetivos egoístas e mesquinhos.

O terceiro tipo de pessoa lê até agora, e concorda com a maioria, tirando um ponto aqui e ali, pois somos todos diferentes. São pessoas que são empáticas, concordam que é necessário se preocupar com os outros, concordam que a complacência é negativa e o egocentrismo destrutivo, concordam em agir e não apenas ficar na intenção, e talvez até sejam pró-ativos em tentar melhorar o mundo (ou se importam, mas não fazem nada – mas não deixam de ser melhores dos que não se importam e fazem o errado).

Os primeiros e segundos tipos não vão aprender nada de textos como este, eles são o que há de errado no mundo, e dificilmente chegarão até o fim de um texto que espelha seus erros. A maioria não aceita estar errado, pois acreditam nas suas verdades empacotadas, querem apenas viver suas vidas medíocres sem a melhorar, são complacentes mas dizem serem pró-ativos, são egoístas que se dizem altruístas e saem anunciando para todos qualquer tipo de mínimo bem que fizeram. O terceiro tipo não tem nada a aprender de um texto como este, pois já compreenderam que apenas com a empatia o mundo pode melhorar, e portanto, não descobriram de nada novo neste texto, mas tiveram o prazer de ler muitas informações sobre o assunto, e ver que existem outras pessoas como eles.

A conclusão é que na pequena frase “Existem três tipos de pessoas, os que não se importam, os que se importam apenas consigo mesmos, e os que se importam”, temos algo transcendental, que pode ser discutido e ampliado ao infinito, e podemos brincar um pouco neste capítulo de conclusão. Dentro desta frase temos a virtude platônica, a iluminação budista, e vários outros meios de expressar a bondade humana.

Esta frase possui o problema do mundo: os complacentes e egoístas. Possui a solução do mundo: A empatia. E possui a razão pela qual nada vai mudar: Os complacentes e egoístas ou não ligam ou não querem ligar para melhorar, é o famoso “só vão aprender quando sentirem na pele”, e os empáticos, que já estão certos, não podem fazer nada pois os primeiros não querem nem aceitam mudar. Como foi dito no prólogo, este texto é inútil para os que não despertaram ainda.

Portanto, as mudanças só ocorrem no Ser, e não na sociedade. Apenas quando o Ser complacente aprender a ser empático e pró-ativo, quando o egoísta aprender a ser empático e ver o mau que faz com seu egoísmo, e quando o empático passivo aprender a ser pró-ativo, e tudo isto vindo de si mesmos já que ninguém aprende com o erro dos outros, é que teremos mudanças. Curiosamente, o último é o mais provável de começa-las, mas é minoria, e já esta a um passo de atingir o ideal da empatia. Como diria a religião: fazer bem ao próximo. Empatia.

É como na ilusão da democracia onde o povo ignorante acredita que o poder de seu voto pode mudar o mundo. O que um em um milhão pode fazer? Nada. O que importa não é o que você pensa ou em que você “vota”, mas sim como você age, como você pensa, e como você influencia os outros a sua volta. Vale muito mais trazer a iluminação a 10 pessoas a sua volta, do que “votar” pela iluminação em um voto. O egoísta acredita que seu um voto é mais importante do que a iluminação que ele representa, e por isso não evolui.


O primeiro grupo nunca vai mudar. Eles não se importam.

O segundo grupo nunca vai mudar. Para eles é o paraíso ser egoísta e pisar em cima dos outros.

O terceiro grupo não precisa mudar.

O primeiro grupo apenas aumenta a quantidade e oportunidade do segundo grupo: quem não se importa permite com a complacência e a impunidade semearem o segundo grupo.

O segundo grupo apenas se prova: vendo a si mesmo e outros de seu tipo, acreditam eles, provam que o único modo de pensar é o egoísta, que estão sozinhos, e não importa o que os outros pensam pois eles não o trazem benefícios.

O terceiro grupo fica feliz com o sorriso dos outros, ajuda os outros e sente com os outros. É a criança que chora só por simpatia (ou empatia) ao ver outra chorando, e ri só por ver outro rindo. Querem partilhar dos bons momentos, e estar presentes nos maus momentos. São vistos como idiotas pelos dois primeiros grupos, e infelizmente, muitas vezes, o desdém e a crueldade destes acaba levando pessoas empáticas, bondosas e agradáveis  - mas fracas - a serem zumbis da mediocridade ou do egoísmo.

Talvez o mundo devesse ser dos idiotas.

O único caminho é o da empatia. Através da empatia promovemos a virtude de Aristóteles, o equilíbrio e iluminação de Buda, a katharsis de Platão, a volta ao nobre selvagem de Rosseau; e a evolução do ser é apenas conseqüência.