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Para finalizar meus artigos sobre o Japão – e minha viagem até este distante país – decidi não fazer um resumo ou tomada geral sobre a viagem, mas sim um artigo sobre o que eu vi, o que eu senti, e acima de tudo, o que eu aprendi com esta viagem e que, em minha opinião, só se consegue visitando países com tamanha tradição, cultura e passado. Para um resumo da viagem, dos pontos turísticos e uma visão mais “visual”, você pode simplesmente ler os artigos postados diretamente do Japão quando estive lá, neste mesmo blog.

Visão do Japão

Uma coisa que eu confirmei, foi como a visão do Japão aqui do ocidente é incorreta e distorcida pela mídia, pelos preconceitos, e pelos exageros. O Japão não é, nem de perto, um país perfeito, ou com uma sociedade perfeita – ainda não chegamos ao ponto onde isto seja possível em nosso planeta – mas ao mesmo tempo, ele certamente é um bom candidato a ser o melhor país da atualidade.

Minha tendenciosidade devido a meu amor pelo oriente – em particular o Japão – não me impede de reconhecer seus problemas: o lado ruim da tradição, que força o Japão a se ater a algumas visões duvidosas, como a caça predatória às baleias, o excesso de “honra”, principalmente do homem, levando a um índice excessivo de suicídios devido a “fracassos” pessoais ou profissionais, os problemas (e contrastes) com a sensualidade e sexualidade, ainda sufocando as pessoas ao ponto de existirem muitos casos de assédio sexual, chegando ao cúmulo dos trens mais movimentados terem vagões só para mulheres. Listar seus defeitos é simples, pois eles vivem na mídia.

Mas o lado bom é geralmente visto como “parte” de um mau: a tradição é sempre vista como fonte dos problemas (acima citados) mas falhando em mostrar os inúmeros benefícios que isto traz àquela sociedade. A honra sempre leva ao assunto dos suicídios, mas nunca novamente aos benefícios de uma sociedade onde até o criminoso tem honra (e o Japão nem é, como as vezes a mídia fala, o país com maior número de suicídios ... eles deveriam fazer seu dever de casa. Em 2007 foram 7º). As críticas sobre a visão de lolitas e mulheres objetos como lugar comum, quando na verdade são exceção – de fato, fora em Akihabara, ninguém presenciou ninguém vestido provocativamente ou de lolita – se veste bem, e as mulheres não deixam de mostrar seus dotes e belezas naturais, mas nada além (e geralmente muito inferior) ao que vemos no Ocidente. Como criticar uma sociedade onde os pervertidos passam a mão nas mulheres nos trens lotados, mas com índices de ataques, violência ou até estupros extremamente inferiores aos outros países que os julgam? Antes de qualquer um criticar uma sociedade por um problema, deve-se parar e pensar: mas nós temos este problema também? e se não temos, é porque somos melhores, ou tão piores que deixamos passar?

Se no Japão se prende tarado por passar a mão boba em uma mulher, devemos lembrar que no ocidente isto não acontece porque a polícia está mais ocupada em prender homicidas, sociopatas e estupradores. Uma mulher está milhões de vezes mais segura nos trens noturnos de Tokyo, do que em qualquer trem ou ônibus do ocidente – e se algo acontecer, vai ser muito menos grave. Tem exceções, em ambos lados, mas por aqui nós justamente só ouvimos falar da exceção.

Também se diz muito que o Japão é ocidentalizado, que é americanizado. Me pergunto, o que realmente é ser um país ocidentalizado e americanizado? Ter BigMac em cada esquina? Ter várias lojas de grife ocidentais? Ter em inglês a maioria das placas e sinais em estações? Gostar de filmes de Hollywood? Vender Windows e Apple nas lojas?

Mas BigMac é uma franquia de Fast-Food muito bem sucedida no mundo todo não porque é americana, mas porque é algo prático, bom, barato, e sempre serve como uma “refeição de emergência”. Lojas de grifes famosas, assim como BigMac, são apenas sinais do capitalismo fazendo seu papel neste país rico: vendendo. É a globalização. Eles tem Tiffany's e BigMac, nós temos China in Box e Japex – eles são ocidentalizados, nós somos orientalizados, ou é apenas a globalização? A explicação mais simples é, geralmente, a correta. Sinais com tradução em inglês é a tendência: é a língua “prática” da globalização, a que é mais aceita e usada para se fazer turismo, se comunicar na internet. Eles tem respeitado a diferença mundial muito mais do que qualquer outro país: além de inglês, é um tanto óbvia a presença de Coreano e Chinês em todos os importantes lugares turísticos, assim como aqui na “América” se coloca também espanhol.

Filmes de Hollywood? São os maiores produtores com maior investimento no cinema (e, diga-se de passagem, grandes estúdios como MGM e SONY são de propriedade Japonesa!). Vi a programação de um grande cinema em Kyoto: metade ou mais dos filmes eram Japoneses ou orientais – eu esperava ver mais Hollywood. Windows e Apple? os mais badalados produtores de software e hardware, mas no Japão também temos uma presença – muito maior – de Sansung, Sony e Canon – todas orientais, as duas últimas Japonesas. A “Ocidentalização” ou “Americanização” que se tanto se fala não esta em lugar algum para se ver, pelo contrário: nos últimos anos, o Japão tem sido o maior exportador de arte e cultura do mundo, espalhando Anime, Mangá, Jpop, Jdrama, e até literatura e cinema, para o ocidente. Se tomados juntos, Japão e Coréia são os “reis” das grandes disseminações culturais dos últimos anos. Se você não conhece ao menos uma obra destes países nos anos recentes, você morreu no tempo do pós guerra e se vendeu à mídia local – esta sim americanizada – onde parece que o oriente simplesmente não existe.

Mas o oriente existe: As maiores empresas de tecnologia, arte, cultura, e fábricas estão no oriente (duvido que não tenha algo ao alcance de sua vista Made in China, mas não duvido que você não encontre algo Made in USA). Mais de 40% da população mundial esta às margens do pacífico oriental. A indústria Japonesa é tão importante no mundo, que o Japão assumiu 20% do capital de risco pelo Boeing 787 lançado este ano, pois sua participação em seu desenvolvimento e construção é considerável. A Boeing – americana - nunca teve os olhos tão puxados: onde está a americanização?

Mas não falo que estamos orientalizados, Chinalizados, Japonizados, Coreanizados (nem sei se existem tais palavras), pois sei que na verdade o que existe é Globalização.

Sociedade

A tradição e cultura Japonesas, ao contrário do publicado pela mídia, até mesmo local no Japão, não estão em declínio nem muito menos em extinção – estão apenas seguindo seu curso natural, quase que uma evolução darwiniana, onde as caraterísticas menos adequadas são deixadas de lado, e as mais benéficas preservadas – e claro – algumas características de outros países são absorvidas por sua qualidade. Os Jovens ainda respeitam os mais velhos, de seu jeito, e seguem as tradições mais benéficas para sua educação, enquanto deixam para trás as maléficas para sua saúde.

Todos seguem os padrões sociais, e estão presos na honra e concorrência sócio-econômicas tão criticadas pelo ocidente como excessivamente rígidas, mas ao mesmo tempo responsável por tornar o país a estrela que é hoje. Houve sim um relaxamento desta rigidez, mas não devemos vê-la como perda da identidade cultural, mas sim como sua evolução: ela era rígida demais, um pouco mais de espaço não prejudica tanto e permite maior tolerância à erros.

Como alguém pode dizer que o povo Japonês tem perdido sua honra, eficiência e união ao observar a velocidade com que se recuperam das mais diferentes tragédias naturais que afligem seu país?

No Japão de hoje, já não é mais visto com desonra alguém que teve um grande fracasso – pelo contrário – é visto como alguém que sabe muito mais sobre o fracasso, e como evitá-lo, do que uma pessoa que nunca fracassou. O fracasso é uma importante experiência de vida: a derrota é uma forma válida de aprender.

O respeito e o reconhecimento estão em todo lugar: você não entra de uma loja sem ser cumprimentado pelo agradável “irashaimasei”. As pessoas são respeitosas umas com as outras, e o maior valor mesmo dentro do capitalismo é com a qualidade do serviço – portanto, nada mais natural que um serviço e atendentes mais simpáticos. As pessoas se cumprimentam nas ruas, nos sinais, até com estrangeiros, até no centro de Tokyo. Os oficiais do governo, da polícia, da imigração foram todos simpáticos. O oficial que me atendeu na imigração quando entrei no país literalmente se divertiu comigo errando ao colocar o dedo no leitor de digital (nem me pergunte). No ocidente, Brasil inclusive, já teria me dado uma bronca, cortado meu dedo fora e metido na máquina a força – isso se já não me extraditasse de cara. Em Toronto, vimos em todo lugar uma placa bem clara: levantar a voz, criticar ou se negar a cooperar com os oficiais levaria à recusa de atendimento ou “processo”. Dá para entender a diferença entre o que é respeitar e o que é ser autoritário? No momento onde você não pode criticar o mau atendimento dos antipáticos e rabugentos oficiais que existem para servir o governo – que por sua vez existe para servir seu povo – você vive em um autoritarismo mau escondido. Não duvido que dar uma de louco com os oficiais do Japão levem ao mesmo fim, mas certamente eles tem maior tolerância, e sua simpatia e atendimento com um sorriso já reduzem a chance de algo sair errado com os humores exaltados.

Os templos perderam muito de seus seguidores, e o povo parece menos religioso. Mas não é assim também no ocidente? A poderosa igreja católica nunca esteve tão fraca e pobre, e religiões secundárias vivem aparecendo, criando um mar de diferentes mitologias para cada gosto. O mesmo ocorre no Japão, exceto que muita gente, certamente devido ao avançado sistema de educação, à tradição e a cultura, aceitam mais uma crença aberta, um espiritualismo individual, do que se ater à uma instituição religiosa com regras fixas. Alguns dizem que a religião do futuro é o ateísmo, mas na verdade a religião do futuro é um plurirreligiosismo de 7 bilhões de crenças individuais – algumas ateístas, muitas similares ao que algumas instituições religiosas pregam, mas cada um com pequenas diferenças – cada um pensando por si. A tradição e cultura religiosas não sumiram, apenas tornaram-se menos explícitas, mais tolerantes, e os rituais mais tidos como festivais do que religiosos - ou seja, uma evolução.

Mas os templos não são deixados de lado, tornam-se implicitamente ecumênicos – como o Shintoísmo e o Budismo não extremistas já o eram: eles pregam o respeito pela natureza, pelo próximo, pelo mundo, e apesar de terem seus mitos, figuras e crenças fixas, valorizam mais a força do caráter e moral, do que o ritualismo pragmático: eu, sem religião definida, ocidental, posso entrar em um templo Shintoísta ou Budista, de qualquer escola, e fazer minhas preces, sem problemas. Ao mostrar meu respeito pelo templo e suas práticas, sou automaticamente aceito.

Óbvio que sem devotos, os templos não tem mais fundos para se manter, e acabam tendo que sucumbir ao turismo para manter suas grandes obras arquitetônicas ou jardins: os maiores templos requerem uma taxa de admissão para visitação – mas você também pode fazer suas doações espontâneas, e os devotos locais podem frequentá-lo normalmente. Um ou outro templo me soaram um pouco “capitalistas” demais, mas novamente, se virou ponto turístico, qual o problema? critico o preço, mas não critico a atitude.

Pobreza e problemas sociais

O vandalismo no Japão é curioso: a primeira instância, não existe. Depois de rodar muito em Tokyo, encontramos algum grafite nas grades das lojas. Em Kyoto e outras cidades, não vi – foi ai que me toquei: o grafite/vandalismo é geralmente feito justamente nas portas de ferro/grades das lojas, que quando abrem e portanto sobem a grade e o grafite “some” - só reparei isso quando andamos em uma rua em um domingo e haviam algumas lojas fechadas. O mudo branco entre as lojas? É branco. Não preciso nem falar que não vimos máquinas de venda quebradas, vidros, pontos de ônibus, lixeiras … rebelar-se se resume a colocar um piercing na orelha e pintar o cabelo de azul.

Pobres e sem-teto existem, raramente, são quase pontos turísticos. Vimos um: o sem-teto tinha ipod e celular, e era limpo (na medida do possível dentro da roupa velha - mas no Japão existem banhos públicos - gratúitos!), dentro de sua “casa” de papelão encostada na parede da estação de Tokyo em uma rua secundária, com ninguém com medo de passar ou ficar por perto na calada da noite.

Conclusão

Em nossa viagem, visitamos os lugares comuns. Não usamos excursão pré-definida com um ônibus entre cada ponto: nós passamos a pé, entre as ruelas, ruas e avenidas, dentro do trem da Yamanote lotado na hora do rush, sendo atendidos isoladamente onde passávamos. Vimos pobres, desempregados e até sem-teto, vimos as casas mais simples e os prédios mais avançados, criamos nosso próprio caminho, propositalmente saindo do comum e turístico para poder conhecer melhor o que realmente é o Japão. Qual foi a conclusão? O Japão é mais do que esperávamos, conforme conhecimento correto e diferente do que é apresentado pela mídia internacional. Os lugares mais “sinistros” eram igualmente limpos, bonitos, bem cuidados e seguros que as grandes avenidas na frente dos pontos turísticos. O povo é educado na loja no fim do beco, na grande loja de departamentos, ou na lojinha dentro da tourist-trap igualmente. O policial nos trata com o mesmo respeito e cortesia que o oficial de imigração, o guarda do templo, o guarda de trânsito, o atendente do hotel.

Na volta para Toronto, 15 dias depois de nossa chegada, nossa perspectiva foi afetada. Toronto Pearson Intl. não parecia mais aquela coisa fabulosa: ele parecia sujo e desorganizado, ninguém se importou em nos ajudar mesmo parecendo perdidos, e tivemos que enfrentar não 1, 2 ou 3, mas 4 pontos de checagem de segurança e imigração, todos – claro – com o obrigatório oficial grosseiro e irritado. O que parecia tão melhor que o Brasil antes, agora nem parecia tão ruim. De fato, fora a tecnologia e a pompa, a desorganização da Air Canada e do aeroporto não perdiam em nada para o do aeroporto de Guarulhos. Nosso aeroporto é sujo, mal projetado e sobrecarregado, mas o povo, o jeito de tratar as pessoas, é até melhor do que no Canadá do Primeiro mundo – as vezes.

O que mais sentimos falta ao voltar, foi o “Irashaimasei” sincero e agradável ao entrar em qualquer loja. Paciência … aqui você tem sorte se for atendido com um sorriso.

No fim, a conclusão é que o Japão tem de tudo do bom e do melhor que o mundo tem a oferecer. Muito – na questão moral - pode ser visto nos países mais desenvolvidos da Europa; a tecnologia certamente pode ser vista em centros econômicos pelo globo (mas é de se notar que enquanto o nível tecnológico do Japão é aproximadamente o mesmo, eles fazem maior e melhor uso del0); mas a tradição e cultura, assim como evolução moral, educação e respeito, são únicos do Japão. Não visite se não estiver preparado para saber, quando voltar, que você visitou o suprassumo das sociedades, e tudo a partir dali vai parecer inferior. 

Tags: japão tokyo kyoto sociedade evolução religião tradição honra cultura primeiro mundo ocidentalização orientalização globalização país perfeito
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